Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

31 outubro 2010

Sobre educação

A educação não consiste apenas em aprender o que está nos livros, em memorizar fatos, mas significa também aprender a olhar, a compreender o que os livros ensinam, a perceber se o que dizem é falso ou verdadeiro. Tudo isso faz parte da educação. Educação não é apenas preparar-nos para passar em exames, obter diploma e emprego, casar-nos e estabilizar-nos; é igualmente saber escutar as aves, olhar o céu, ver a extraordinária beleza de uma árvore, a forma dos montes, o sentir com eles, estar em direto contato com todas as coisas.

Autor: Krishnamurti - Ensinar e aprender - ICK

30 outubro 2010

Solve et Coagula - Parte 1



Não é um trabalho de um artista dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que quer, eles não seriam o público, e sim seriam o artista. É o trabalho de um artista dar ao público o que ele necessita. – Alan Moore

Primeiro Ato

Chega!

Mil vezes um varredor de rua feliz, do que um normótico de sucesso... Mil vezes um rebelde insatisfeito do que um morno satisfeito; um Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito.

Recuso-me de vez à padronização cultural que me força a este estado de constante mediocridade.

Sim! Estou ciente de que não é fácil ser do grupo diferente e arriscado demais resistir ao ambiente...

Mesmo assim... Serei persistente!

Não quero com o avançar da idade, ter num corpo decadente, coração e mente dormentes, na poltrona retraído, distraindo-me com o débil movimento frenético de um controle remoto.

Chega!

Não dá mais para disfarçar este constante medo da vida, este medo da luta e das experiências novas, que aos poucos me rouba o espírito de aventura e o frescor da novidade.

Quero de vez me sentir livre do medo de ser e pensar diferente, ainda que em total desacordo com o padrão socialmente vigente.

Na verdade, farto estou desse falso respeito à arcaica e disfuncional tradição e autoridade...

Quero bradar por todos os cantos deste imenso palco da vida, a beleza deste espírito de descontentamento e de revolta, que agora, me toma por completo...

E não me venha com tuas frases prontas ou com teus arcaicos sistemas de crença organizada, pois os mesmos... Não conseguem mais me iludir... Tudo isso pode ser muito eficaz para distrair um infeliz iludido, mas não a um feliz insatisfeito consciente.

E tem mais: recuso terminantemente essa ilusória felicidade de segunda mão; quero descobrir algo original, pois até aqui, no que diz respeito à verdadeira felicidade, nada do que me foi dito teve valor.

Cansei de acreditar em políticos, governos e em sistemas de crença organizada, a qual erroneamente, muitos chamam de religião. Nenhuma destas instituições me quer psicologicamente autônomo e auto-suficiente: sei que isso me tornaria um problema para eles.

Mesmo assim: quero deixar de ser ajustado, mecânico e desprovido de surtos criadores.

Já não há mais como aceitar, como a grande maioria, sem a mínima reflexão, aos poucos me consumir consumindo as idiotices criadas por um idiota qualquer.

Pois bem: não sei onde, não sei quando e muito menos quem, disse que ousar é o preço do sucesso... Então, aqui expresso: ouso pelo Supremo, ouso pela Excelência de Ser, pois farto estou desse público e estagnante vicio pelo óbvio!

E não me olhe com teus olhos travados de ideologias, pois quero ser livre de toda influência... Já não tens como me reformar.

E o que será de mim? Não demoro a te responder: serei um desajustado, um nada, um anônimo, um ser livre da doentia expressão da vontade coletiva, secularmente imposta por uma minoria desconhecida...

O que será de mim?... Digo já: serei um imoral diante de teus olhos condicionados. Tudo bem! Não faz mal! Não me importa!

E pode ficar com teus usos, costumes, templos e livros sagrados, pois nada disso me serviu para viver a vida em toda a sua plenitude; muito ao contrário, me mantiveram por anos e anos apenas existindo feito um humanóide...

Sim um humanóide... Um escravo livre, preso na falsa segurança de uma carteira de trabalho assinada e na possibilidade de consumir em suaves prestações, numa importada loja de departamento qualquer...

Chega!

Nunca mais negarei minha liberdade de expressão, minha originalidade em nome das migalhas da aceitação parental e social...

A partir de agora, de todas as minhas células expurgo os tóxicos e familiares "você tem que" - os quais durante anos me mantiveram preso num ciclo vicioso de medo, culpa e vergonha e que por pouco não fragmentaram por completo meu canal com a Suprema Criatividade.

Chega, pois a partir de agora, Eu decido: serei um artista, um ator, um cantor, um poeta, um dançarino!

O que?... Achas que estou ficando louco?... Ora, ora! Que beleza!... Levam-se anos para chegar nesta santa loucura que a tudo cura.

Portanto, chegue mais perto e olhe... Olhe bem fundo em meus olhos – se é que consegues não desviar os teus dos meus - e veja o que agora ocorre: o velho homem está em seu leito de morte... E não ouse tentar ressuscitá-lo! Deixe que morra!...

Deixe que morra, feito que a morte do antigo é o nascimento do novo!...

Como sei que a estúpida maioria abomina a tristeza e vive a fugir da dor, ainda que doloroso, digo: deixe-me aqui insatisfeito, descontente... Porque debaixo da superfície prospera de minha vida passada, só rotina, frustração, ansiedade, desespero e ilusão eu experimentava.

Portanto, é com seriedade que imploro: deixe que o velho morra!...

Deixe-me ser por livre e espontânea vontade um ser humano dolorosamente sensível...

Chega!

Cansei de fazer parte da enorme massa de manobra sobre a qual, os poucos espertos inconscientemente prosperam materialmente num compasso espiritual decadente. Deixe-me só...

(fim do primeiro ato)

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O ponto


A suprema Felicidade


Jabor, sobre o filme "A Suprema Felicidade":
"O tema me escolheu"
Após um jejum de quase 20 anos, o jornalista e diretor Arnaldo Jabor volta às telas com o longa "A Suprema Felicidade". Veja entrevista


125 min. Paulo é um menino que vive no Rio de Janeiro da década de 50. Enquanto acompanhamos as aventuras do rapaz, conhecemos os típicos personagens cariocas da época.

Assista o trailer:
Jabor não é José Padilha, mas também põe sua tropa de choque na rua. Mariana Lima é a mãe, uma bela mulher que tudo sacrificou por amor e, ao longo dos anos 1940/50, vira uma dona de casa amargurada, que se interroga do que foi feito de tanto amor que o marido e ela sentiam um pelo outro. Atriz de sólida formação teatral - é casada com Enrique Diaz -, Mariana já era fã de Jabor, o autor de cinema, mesmo que, nas últimas décadas (quase 20 anos!), ele fosse um cineasta de palavras. Ela conta como se preparou - "Vi muitos filmes da época, esculpi a personagem com o pessoal dos figurinos e da maquiagem, mas fundamentalmente vi e revi um filme que se revelou muito útil - Foi apenas um sonho*, de Sam Mendes, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, sobre os problemas de um casal."

O elenco de A Suprema Felicidade participa de uma rodada de entrevistas num hotel dos Jardins. Só Marco Nanini, entre os protagonistas, não está presente. Ele faz o avô, personagem chave na trajetória de Paulinho. Nanini está preso no Rio, gravando A Grande Família. Mas ele talvez seja a alma do filme de Jabor.

Na entrevista que deu ao Estado há pouco mais de um mês, quando A Suprema Felicidade abriu o Festival do Rio, o diretor disse que seu filme é pessoal, inspirado em eventos e figuras de sua família, mas não é necessariamente autobiográfico. A Suprema Felicidade tem sido comparado a Amarcord, de Federico Fellini, mas Jabor é o primeiro a reconhecer que Fellini ‘se lembra’ e o filme dele é um pouco o que gostaria de se lembrar. O autor italiano reconstitui sua infância em Rimini, na Itália sob o fascismo. O arco de A Suprema Felicidade é mais completo, mesmo que o filme seja, talvez, mais fragmentado. É o que faz sua beleza particular, e também coloca o espectador na situação de reconstituir no inconsciente a integralidade dessa experiência humana e artística.

As cenas se sucedem. Menino, Paulinho apanha do colega. Adolescente, ele vai reagir e derrubá-lo com um soco, mas enquanto o amigo, que o ama secretamente, se alegra por essa reviravolta do jogo, Paulinho chora pelo que não quer ser - medíocre como seu pobre pai. As ilusões perdidas, a vida reencontrada. Foi maravilhoso para Jaime Matarazzo entrar nessa aventura. Filho de Jayme Monjardim, neto de Maísa, a grande, ele sempre quis fazer cinema, mas sonhava com a autoria, a direção. Ser ator não estava nos seus planos, e aí veio o papel na minissérie sobre a avó, a novela das 6 (Escrito nas Estrelas) e o filme de Jabor. Hoje, ele se sente ator e comemora o contrato de quatro anos que acaba de assinar com a Globo.

"Foram muito importantes para mim as cenas com o Nanini. O personagem lembra meu avô, tem alguma coisa dele, a força vital. E o Nanini foi muito generoso. Trocava comigo sua imensa experiência. Depois de passar pelo teste de contracenar com ele, com a Mariana, com o Dan (Stulbach) posso dizer que, agora, sim, já me sinto ator."

Não dá para não pensar pelo menos no título de um filme francês cult, La Mama et la Putain, de Jean Eustache. A p... e a mãe. Mariana é a mãe, bela, classuda. Ela brinca. "Isso aqui é uma personagem que uso em meus dias de falar com jornalistas. No cotidiano, sou muito mais esculachada. Tenho duas filhas, vivo correndo de um lado para outro, de tênis, como qualquer mãe moderna." A do filme é massacrada no próprio ambiente familiar. "Não é só um retrato de época, ainda existem muitas mulheres assim. Casadas e infelizes."

Tammy faz a patricinha da novela das 8, Passione. A pergunta que não quer calar - quem matou Paulo na trama de Silvio de Abreu? Poderia ser a filha, que interpreta? "Poderia ser qualquer um, mas confesso que ia ficar muito surpresa se fosse a Lorena." Tammy não é a patricinha nem a p..., que faz o gênero ‘virgem no bordel’. Ele fez muita pesquisa para viver a personagem. Conheceu prostitutas que dão duro para sustentar a família e que fazem porque gostam. Foi difícil dublar Marilyn Monroe e interpretar ao mesmo tempo. "Mas valeu", diz.

Fonte

Trailer do filme "Foi apenas um Sonho":

29 outubro 2010

Alegria sem objeto


Em alguns momentos, a sós conosco mesmos, experimentamos uma imensa carência interior.

É a motivação-mãe que gera as demais. A necessidade de preencher esta carência, de apagar esta sede, nos leva a pensar, a agir. Sem sequer interrogá-la, fugimos de nossa insuficiência, tratamos de preenchê-la às vezes com um objeto, às vezes com um projeto, e logo, decepcionados, corremos de uma compensação à seguinte, indo de fracasso em fracasso, de sofrimento em sofrimento, de guerra em guerra.

Este é o destino do homem comum, de todos os que aceitam com resignação esta ordem de coisas que julgam inerente à condição humana.

Observemos de mais perto.

Enganados pela satisfação que nos proporcionam os objetos, chegamos a constatar que causam saciedade e, até mesmo, indiferença: nos preenchem num momento, nos levam à não carência, nos devolvem a nós mesmos e logo nos cansam; perderam sua magia evocadora. Portanto, a plenitude que experimentamos não se encontra neles, está em nós; durante um momento o objeto tem a faculdade de suscitá-la e tiramos a conclusão equivocada de que ele foi o artesão desta paz.

O erro consiste em considerar este objeto como uma condição 'sine qua non' da dita plenitude.

Durante estes períodos de alegria, esta existe em si mesma, não há nada mais. Logo, referindo-nos a essa felicidade, a superpomos a um objeto que, segundo acreditamos, foi o que a ocasionou.

Portanto, objetivamos a alegria (transformamos a alegra em um objeto).

Se constatarmos que esta perspectiva na qual nos situamos só pode dar uma felicidade efêmera, incapaz de nos proporcionar aquela paz duradoura que está dentro de nós mesmos, compreendemos, por fim, que, no momento em que alcançamos o equilíbrio, nenhum objeto o causou; a última satisfação, alegria inefável, inalterável, sem motivo, está sempre presente em nós; o que ocorre é que estava velada para nossos olhos.

De: "A Alegria sem Objeto" - Diálogos com Jean Klein

Uma casa de segredos e mentiras

Título Original: A House of Secrets and Lies
Diretor: Paul Schneider
Gênero: Drama
Elenco: Connie Sellecca, Kevin Dobson, Grace Zabriskie, Georgann Johnson, Geoffrey Nauffts
Ano: 1992
País: USA
Tempo: 100 minutos


Um filme de TV com Connie Sellecca, como uma repórter tão envolvida com sua carreira que o seu marido advogado é conduzido a uma série de investidas sem sentido. O que levou Connie a perceber o comportamento sexual compulsivo de seu marido foi uma entrevista com uma ex-prostituta Grace Zabriskie. Através da intrevista ela passa a saber que é uma co-dependente, alguém que torna-se doentiamente obcecado com os problemas de um parceiro.

O que buscamos?

Tudo o que buscamos é criar motivos para completar um vazio existencial que nos corrói. Vivemos em um mundo efemero onde o superficial se torna o comum e nada tem mais valor a não ser a vontade única de ser o centro da atenção, independente como isso será feito. Vivemos em um vazio profundo onde nada mais tem sentido ou faz sentido, e destrói o senso de um coletivo. Que se busca, mas não é vivido por ficar na forma e não na vivência, somos humanamente egoístas.

Compositor artístico: Adilso Machado

A arte de produzir efeito sem causa





Em sua estréia na Companhia das Letras, Lourenço Mutarelli narra a história de Júnior, um homem que aos 43 anos é obrigado a voltar para a casa do pai depois de abandonar o emprego e o casamento. Ali, se vê arrastado por um vazio existencial que o leva a transitar entre a sanidade e a loucura. 

LOURENÇO MUTARELLI nasceu em 1964, em São Paulo. Escritor, artista gráfico, roteirista e ator, publicou diversos álbuns de histórias em quadrinhos, hoje cultuados entre o público do gênero. "O cheiro do ralo", seu primeiro romance, saiu em 2002, seguido por "O natimorto" e "Jesus Kid". Também escreveu peças de teatro e atuou em curtas-metragens e no filme "O cheiro do ralo", de Heitor Dhalia.

Achados em meio de perdidos


Raramente, em minhas pesquisas pela Net, deparo-me com momentos de lucidez...


...Nada dessas mariquices de passar a vida a escrever romances e ganhar prémios nobel por algo que não tem utilidade nenhuma no transcender o ideal humano. Meia centena de páginas mudam o mundo...

Rogerio M. F.

Egocracia

As três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 países mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza que 2,8 bilhões de pessoas o que equivale a 45% da humanidade; o resultado é que mais de um bilhão passa fome e 2,5 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza; no Brasil 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional. Que dizem esses dados se não expressar um aterrador egoísmo?...

Mudar de rumo? Sim, na direção do "nós", da cooperação de todos com todos e na solidariedade universal e não do "eu" que exclui. Se tivermos altruísmo e compaixão não deixaremos que os fracos sejam vítimas da seleção natural. Interferiremos cuidando-os, criando-lhes condições para que vivam e continuem entre nós. Pois cada um é mais que um produtor e um consumidor. É único no universo, portador de uma mensagem a ser ouvida e é membro da grande família humana.

Isso não é uma questão apenas de política, mas de ética humanitária, feita de solidariedade e de compaixão.

Leonardo Boff

28 outubro 2010

A vida é minha



Capital Inicial
Composição: Alvin L. / Dinho Ouro Preto

Faça isso
Faça aquilo
Perca peso
Tenha estilo
Compre esse
Prove aquele
Siga a moda
Vote nele...
Não ponha palavras
Na minha cabeça
Pare de falar
Antes que eu
Enlouqueça
Não quero dar
Explicações
Não vou mudar
Não importa
O que aconteça...
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser...
Cante essa
Tenha medo
Fume outro
Acorde cedo
Tenha modos
Fique mudo
Ame o mesmo
Odeie tudo...
Querem que eu cale
E obedeça
E depois de tudo
Ainda agradeça
Ser só alguém
Dizendo "sim"
Não vou mudar
Não importa
O que aconteça...
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser ...
Não ponha palavras
Na minha cabeça
Pare de falar
Antes que eu
Enlouqueça
Não quero dar
Explicações
Não vou mudar
Não importa
O que aconteça...
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser
A vida é minha
Eu faço o que eu quiser!

Bravo Mundo Novo



Plebe Rude
Composição: Philippe Seabra e André X

Se eu lhe dissesse olhe além do horizonte
Será que você olharia?
Bravo mundo novo está nascendo
Pelo visto vai te surpreender um dia
Conselho ou sermão, não aprendemos a lição
De que com insistência ou não
Nos protegemos e lutamos contra o que?
Bravo mundo novo (bravo mundo novo)
Se eu lhe dissesse as coisas não são como parecem
Será que você escutaria?
Bravo mundo novo está nascendo
Pelo visto vai te surpreender um dia
Herdamos do passado velhos erros e ideais
Que só servem de exemplo para os demais
Que já há muito tempo
Bravo mundo novo
Não pergunte então
Se os sinos dobrarão
Se dobrarem não será por você
Bravo mundo novo, decadente nosso cativeiro
Mas se tão jovem mais parece que já há muito tempo

O que é a vida?

O que é a nossa vida? Se observarem, desde o momento em que nascemos até a nossa morte, trata-se de uma batalha constante, de uma luta constante, com grandes prazeres, grandes medos, desespero, solidão, a total falta de amor, a monotonia, a repetição, a rotina. Esta é a nossa vida; passar quarenta anos num escritório, ou numa fábrica, no papel de dona de casa, a labuta, a monotonia de tudo isso, o prazer sexual, a inveja, o ciúme, o fracasso na busca do sucesso e a adoração do sucesso. Esta é a nossa torturada vida diária se você realmente é sério e observa o que ela realmente é; mas se você busca o mero entretenimento sob diversas formas, seja na igreja ou num campo de futebol, então esse entretenimento tem suas próprias dores, seus próprios problemas. E a mente superficial escapa através da igreja e do campo de futebol. Não estamos lidando com essas mentes superficiais, pois elas na verdade não estão interessadas. A vida é algo sério, e nessa seriedade há uma grande gargalhada. E apenas a mente séria que está vivendo pode solucionar o imenso problema da existência.

Krishnamurti - Sobre Relacionamentos - Cultrix

27 outubro 2010

Zen

Título original: Zen
Diretor: Banmei Takahashi's
Língua original: Japonês
Legendas: português
Duração: 127 min.
Lançamento: 01/2009

SINOPSE
Filme baseado em fatos reais, ambientado no Japão e na China. Retrata a vida do mestre zen budista Dogen Zenji, durante o turbulento período Kamakura. Seus pais morreram quando ele ainda era muito jovem, e o último desejo de sua mãe era que ele se tornasse um monge e trabalhasse para o bem de todos os seres. A experiência de ter perdido seus pais, deu uma visão especial a Dogen para a natureza fugaz da vida e desencadeou a sua busca pela iluminação. Ele viajou para a China e treinou para se tornar um mestre budista, mas quando retornou ao Japão para difundir o que ele aprendera como uma forma nova de budismo, foi recebido com muita resistência e repressão.

26 outubro 2010

O Mito do Êxodo

O último Samurai 

A analista junguiana Pearl Mindell interpretou a história do Êxodo como um mito a respeito da aceitação ao chamamento. O território psicológico do Egito é a nossa escravidão à vida que conhecemos. O Faraó é a parte de nosso ser ligada à permanência da mesma situação, e Moisés o nosso novo e heróico Self nascente.  Quando, apesar de toda a argumentação  e o heroísmo de Moisés, o Faraó não autoriza a partida do seu povo, Deus intercede enviando pragas para assolar o Egito. Mindell compara isso àquelas ocasiões em que as coisas vão tão mal que temos de sair de nosso entorpecimento e perceber a seriedade da nossa situação. Todavia, mesmo depois que conseguimos deixar o Egito não encontramos imediatamente o paraíso ou a Terra Prometida que procuramos. Na verdade, vagamos a esmo pelo deserto durante anos, muitas vezes desejando que ainda estivéssemos no Egito.

Durante esses anos de perambulação pelo deserto, temos sorte se algum aspecto da nossa vida permanece estável - talvez um emprego, um relacionamento, uma trilha espiritual. A existência desse elemento estável torna mais fácil a realização de todas as outras alterações requeridas pela alma.

Titanic

Nessa altura, nós podemos subitamente descobrir um vazio onde antes estava o Ego, e ficamos sem saber exatamente o que desejamos fazer. A única saída nesse caso é a experimentação, tentar uma coisa e outra até que algo desperte o nosso interesse. Para um estudante, pode ser que um determinado curso inesperadamente desperte o seu entusiasmo por algum assunto; uma outra pessoa pode encontrar um amor, um emprego ou a chance de escalar uma montanha. Às vezes o senso de desorientação é tão grande que as pessoas têm dificuldade para fazer as escolhas mais simples da vida, reconhecendo que todas as suas decisões têm de ser programadas pelos outros, desde os cereais que come no café da manhã até os programas de televisão que assiste.

Podemos descobrir a imagem daquilo que estamos buscando se prestarmos atenção à nossa vida fantasiosa. As imagens estão dentro de nós. Quando estamos vagando pelo deserto, é fundamental conservar a nossa confiança na jornada e num propósito mais elevado, e saber que o maná irá cair do céu.

Batman Begins

Os anseios do nosso coração, porém, estão relacionados a um desejo interior de saber quem somos, no nível da alma, e de sermos parte da grandeza do universo - seja através de um grande amor, de um grande trabalho, de uma experiência transcendental, de uma transformação pessoal ou, ainda, alcançando-se a sabedoria. Em idades mais avançadas, talvez comecemos a ansiar por deixar o nosso corpo - especialmente se a nossa saúde tiver começado a piorar - e experimentar algum tipo de vida que possa haver além desta.

Nunca é tarde demais para responder ao chamamento da alma e empreender uma aventura. Frequentemente, experimentamos sem sucesso muitos caminhos, alguns deles até mesmo doentios, antes de encontrar aquele que estamos procurando.

Embora às vezes interrompamos subitamente o compromisso com as nossas jornadas, na verdade é demasiado tarde para voltarmos atrás. Quando isso acontece, nós nos tornamos apenas Errantes e não Exploradores - isolados dos outros, com medo de qualquer tipo de intimidade, irracionalmente iconoclastas. Temos de ser independentes, diferentes e de continuar avançando. Nós não podemos nos comprometer nem estabelecer vínculos verdadeiros. Mesmo depois de nos casarmos, no fundo ainda continuamos à espera do nosso príncipe ou princesa. Embora possamos permanecer num emprego, no fundo nós sabemos que ele não é o nosso "verdadeiro" trabalho. De fato, toda a nossa vida parece vazia, e nós ansiamos por um paraíso ou, pelo menos, por algo melhor.

V de Vingança


Muitas pessoas nunca se comprometem realmente consigo mesmas ou com suas próprias jornadas. Somente quando nos tomamos capazes de fazê-lo é que deixamos de ser Errantes e nos transformamos em genuínos Exploradores. Quando fazemos isso, a nossa busca modifica-se e torna-se mais profunda. Subitamente, passamos a buscar a autencidade e a profundidade espiritual, e sabemos que o nosso objetivo não é apenas uma mudança de ambiente - de companheiros, de trabalho, de lugar - e sim uma mudança em nós mesmos. Às vezes essa nova busca começa a ter um caráter espiritual - quer nos sintamos à vontade ou não usando a linguagem religiosa - porque estamos procurando algo que tem um significado profundo e eterno.
Matrix

No nível mais elevado, o Explorador encontra a verdade que procurava. No mundo real, cada um de nós encontra alguma verdade e, desta forma, todos podemos ser Exploradores e oráculos, compartilhando nossas questões e descobertas uns com os outros.

Carol S. Pearson - O Despertar do Herói Interior

O Chamamento para a Busca: Ultrapassando o Limiar


Embora o chamamento para a busca possa ocorrer em qualquer idade, ele se manifesta de forma mais nítida no final da adolescência e no início da idade adulta. Esta é a fase da exploração - exploração de novas terras, de novas idéias, de novas experiências - a fase de aprender coisas a respeito do mundo. É a época de viajar, de estudar, de experimentar coisas novas.

Um jovem que no início da vida tenha recebido suficiente apoio para alcançar um saudável desenvolvimento do Ego poderá responder a esse chamamento com entusiasmo, alegria e disposição. Em virtude do entusiasmo despertado pela perspectiva da nova aventura, a alegria pode ser tão grande a ponto de quase eclipsar o medo do futuro e a relutância do indivíduo em abandonar o útero - Mamãe, Papai, a escola. A nova aventura pode ser um curso universitário, um emprego, um casamento, o serviço militar, viagens ou praticamente qualquer coisa que ofereça a oportunidade de se fazer algo realmente novo, algo que a pessoa tenha escolhido por si mesma.


Numa fase posterior de sua vida, você talvez olhe para trás e diga: "Eu só me casei (ou me alistei no exército, ou fui para a universidade) para sair de casa." Qualquer que tenha sido a razão, porém, ela serve como um ponto de partida para a grande aventura de viver a sua própria vida. Embora, ironicamente, as escolhas talvez não tenham sido as ideais, do ponto de vista do Ego foram elas que abriram o caminho para o desenvolvimento da Alma.

O jovem explorador, cujo desenvolvimento do Ego é incompleto, talvez careça da coragem ou da autoconfiança necessárias para empreender uma grande aventura com tanta tranquilidade e boa vontade. A experiência talvez seja repleta de medo, e o primeiro passo à frente poderia assemelhar-se mais a uma volta em torno do quarteirão do que a uma viagem ao redor do mundo. Alguns de nós iniciam a jornada porque, tal como Dorothy, no Mágico de Oz, nós nos sentimos Órfãos e queremos conhecer um grande mago para que ele nos ajude a encontrar um lar.

O impulso de vagar pelo mundo ataca tão vigorosamente as pessoas durante a meia-idade como na fase de transição para a idade adulta. Como jovens adultos, nós procuramos a nossa verdadeira vocação profissional, o amor verdadeiro, um lugar do qual gostemos o bastante para nele nos fixarmos e uma fílosofia de vida que possa nos dar força. Na meia-idade, todas estas questões voltam novamente à superfície (como pode ter acontecido muitas vezes antes). Se somos casados, nós nos perguntamos: "Esta é a pessoa junto de quem quero passar o resto da minha vida?" O emprego ou carreira que antes nos parecia satisfatório pode subitamente parecer pouco compensador, e nós consideramos a possibilidade de trocar de emprego ou de fazer alguma modificação na nossa carreira.

Nós reavaliamos nossas realizações à luz das aspirações da nossa juventude. O fato de nossas ambições anteriores terem ou não se realizado é de fundamental importância para redefinir nossas ambições no contexto da nossa mortalidade. A espiritualidade torna-se mais importante, e nossas posições filosóficas precisam ser reavaliadas depois de reconhecermos que a mortalidade é uma questão não apenas filosófica mas também pessoal.

Para muitas pessoas de meia-idade e um número bastante significativo de jovens, a jornada tem de se conciliar com responsabilidades conflitantes - filhos, empregos, pagamento de hipotecas, necessidade de cuidar dos pais. Empreender uma aventura parece ser uma coisa impossível. Você quer voltar a estudar mas tem de trabalhar para mandar os filhos para a universidade. Você quer velejar pelos sete mares mas precisa pagar a hipoteca.

"A autopiedade é uma forma de autodescoberta, de auto-revelação; ela revela os meus anseios para mim mesmo." (James Hillman)
O chamamento varia de pessoa para pessoa. O chamamento sempre se destina a atuar num nível mais elevado ou mais profundo, visando encontrar um modo de viver que seja mais significativo e profundo, e descobrir quem você realmente é quando se despe do papel social criado conjuntamente por você e pelo seu ambiente.
Frequentemente, a busca se inicia porque a vida nos parece limitada ou vazia e, assim, sentimos a necessidade de fazer alguma coisa. Nós experimentamos o chamamento na forma de um sentimento de alienação ou de limitação no nosso ambiente atual. Para o Explorador, a questão é de conformismo versus individualidade; o ambiente em que vivemos nos parece acanhado demais. Todavia, o nosso desejo de agradar, de nos ajustarmos, de satisfazer as exigências da nossa família, de um grupo de amigos, do trabalho ou da escola ainda é demasiado forte. A maioria de nós sabe que o rompimento das regras tácitas causam as maiores represálias.

No início, nós nos ajustamos para satisfazer os companheiros e as pessoas que ocupam posições de poder, e depois continuamos a fazer isso para garantir o nosso sucesso financeiro, o nosso status, e para agradar a família e os amigos. O conformismo, entretanto, acaba criando uma tensão entre quem realmente somos por dentro e o comportamento que se espera de nós. Esse tensão é absolutamente necessária para o desenvolvimento. O "ajustamento" é definido pelas maneiras através das quais as pessoas se assemelham; a individualidade é definida pelas maneiras através das quais elas diferem umas das outras. Assim, é a nossa própria singularidade - o nosso Self- que não se adapta completamente ao meio.

Começamos nossa jornada com uma experimentação um tanto errática, tentando diversas coisas diferentes. Aparentemente, continuamos sendo conformistas, pois somos os únicos a saber que temos uma fonte de individualidade que os outros não vêem. Ou, alternativamente, nós somos Rebeldes, definidos quase que exclusivamente com base na nossa oposição ao status quo. Em geral, isto significa que a unica forma de conservar um senso individual do Self é procurar continuamente afirmá-lo e torna-lo visível. Como quer que seja, somos na verdade controlados pelos nossos ambientes.

Quantos de nós já tiveram este pensamento: "Se eu tivesse dito o que realmente pensei, se eu tivesse feito o que realmente queria fazer, eu perderia o meu emprego/minha família/meus amigos?" O Explorador em potencial anseia por algo mais do que lhe proporcionam o emprego, a família e os amigos, mas acredita que, para isso, o indivíduo tem de abrir mão dessas coisas - e, ao menos temporariamente, de certa forma ele tem razão, Para nos abrirmos e nos desenvolvermos temos de abandonar o mundo e as experiências que conhecemos. Embora isto não signifique a impossibilidade de continuarmos ligados a essas comunidades e, muito menos, a necessidade de abandoná-las fisicamente, isto de fato implica estabelecer algum distanciamento emocional para podermos seguir o nosso próprio caminho e pensar de forma independente.


Muitos de nós nunca sentem que preferimos partir. O nosso Explorador é motivado mais intensamente por um sentimento de alienação. É possível que o nosso cônjuge ou amante nos tenha abandonado, que tenhamos sido demitidos ou que comecemos a questionar uma instituição e nos tenham dito para entrar na linha ou cair fora, ou que estivéssemos envolvidos num relacionamento tão abusivo ou viciante que sentimos necessidade de acabar com ele para nos salvar. Nesses casos, nós talvez nos sintamos especialmente perdidos e despreparados para a jornada.

Muitas vezes nós começamos descobrindo não aquilo que queremos mas sim o que não queremos. De fato, às vezes entramos numa fase em que estabelecemos um compromisso radical com as nossas próprias almas. Nesses períodos, a partida e o afastamento podem ser a tônica de nossas vidas. Nós penetramos em cada nova situação ansiosos por verificar se esta é a experiência, a pessoa ou o emprego que irá nos satisfazer. Cada situação que deixa de nos satisfazer é deixada para trás (psicologicamente, pelo menos) e mais uma vez ganhamos novamente a estrada.
Carol S. Pearson - O Despertar do Herói Interior

A formação de um Guerreiro

Atualmente, o Guerreiro é um arquétipo ao mesmo tempo dominante e impopular porque estamos passando por uma defasagem cultural; nós precisamos de um nível mais elevado do arquétipo. O Guerreiro de alto nível exige que lutemos por algo que esteja além dos nossos próprios e mesquinhos interesses, que afirmemos o idealismo básico do arquétipo em suas formas mais puras e elevadas, e que lutemos por coisas realmente importantes - o que, na nossa geração, pode significar a sobrevivência das espécies. Ele também exige que lutemos tendo em vista uma preocupação social mais ampla; nesta geração, isto pode tomar necessária uma redefinição da identidade, de modo que passemos a ver como pertencentes ao nosso "time" não apenas a nossa própria organização ou país, mas todas as pessoas de todos os lugares. Neste contexto, o inimigo não é mais uma pessoa, um grupo ou um país, mas sim a ignorância, a pobreza, a ganância e a falta de visão!

Todavia, nenhum de nós já parte desse nível. Nós começamos aprendendo os rudimentos da arte de defender nossos interesses e de utilizar os meios necessários para obter o que queremos...

Enquanto não estabelecermos limites claramente definidos, acreditaremos, corretamente ou não, que estamos sendo mantidos prisioneiros por alguém ou por alguma coisa. Quando as pessoas estão começando a afirmar suas próprias identidades no mundo, elas frequentemente podem pensar que, se fizerem isso, todos irão atacá-las ou abandoná-las. Como o Guerreiro que há dentro de nós muitas vezes começa a expressar suas próprias verdades atacando as verdades dos outros, nós realmente provocamos o ataque e o abandono. Somente mais tarde reconhecemos que foi o nosso próprio ataque - e não o nosso poder - que deu origem a essas reações inamistosas.

Embora isto seja duplamente problemático para as mulheres às quais foi ensinado que mulheres poderosas são vistas como uma ameaça pelos homens, as pessoas de ambos os sexos recebem de uma forma ou de outra esta mensagem: '' Não desafie a autoridade "; " Não entorne o caldo''. Quando finalmente chega o momento em que conseguimos falar de forma aberta e franca, nossas vozes autênticas terão sido abafadas durante tanto tempo que nossas primeiras afirmações saem na forma de guinchos ou de gritos. As mulheres frequentemente tem o seu primeiro contato com o seu Guerreiro interior quando estão a serviço do seu Caridoso, lutando pelo interesse de outros; somente mais tarde elas aprendem a lutar também por si mesmas.

O Guerreiro nascente tem duas defesas principais: o segredo e a retirada estratégica. O segredo é uma espécie de camuflagem. Estamos mais protegidos contra um possível ataque quando não podemos ser vistos. As pessoas que poderiam atacar os nossos novos interesses, ideias ou o senso do nosso próprio Self não conseguem fazê-lo porque nada sabem a nosso respeito. Os bons Guerreiros sabem que nunca devemos entrar numa batalha antes de estarmos preparados para o combate. Isto muitas vezes significa que não devemos levantar questões que possam provocar um conflito com outras pessoas antes de estarmos suficientemente seguros no nosso relacionamento a ponto de sabermos que vale a pena correr o risco de uma separação e até estarmos adequadamente protegidos caso a batalha venha mesmo a ocorrer.

A retirada estratégica é uma medida sensata. Quando se depara com uma força nitidamente superior, o Guerreiro recua e ganha tempo para aumentar a sua própria força. Quer se trate de crianças que começam a assumir uma posição diferente daquela de seus pais, quer se trate de adolescentes tentando divergir dos outros membros de seu grupo, ou de adultos que discordam de seus amigos, colegas ou colaboradores, se a reação dos outros for demasiado negativa ou hostil, eles frequentemente irão se retrair por um período bastante longo a fim de cuidarem de seus ferimentos, sararem e se fortalecerem. Em alguns casos, o dano é tão grande que eles nunca mais tentarão afirmar-se novamente.
Na maioria dos casos, porém, os Guerreiros se retiram e reconsideram sua estratégia. Talvez eles fiquem alertas e aprendam novas habilidades. Algumas crianças, por exemplo, sabem que precisam deixar os seus pais mas esperam a hora certa, procurando ajuda quando e onde quer que possam obtê-la, até conseguirem o diploma do segundo grau. Algumas pessoas permanecem em empregos horríveis até se formarem numa escola noturna. Outros praticam caratê ou jogos de estratégia, como o xadrez, e depois fazem outra tentativa. Embora muitas vezes as pessoas se recriminem pelo tempo em que permanecem em ambientes acanhados, elas o fazem até estarem bastante fortes psicologicamente para poderem lutar por si mesmas.

Os Guerreiros espertos tentam controlar o campo de batalha e só entram em combate quando estão suficientemente preparados para ter uma boa chance de alcançar a vitória. E uma atitude sensata procurar ganhar tempo para realizar o treinamento básico e traçar um plano de combate. Durante essa fase de preparação, nós aprendemos a desenvolver a autodisciplina e - uma característica do Guerreiro de primeira linha - a controlar nossos impulsos e sentimentos. Todavia, mais cedo ou mais tarde temos de lutar, e isso exige coragem.

Algumas pessoas começam a lutar praticamente desde o momento em que nascem. Elas lutam com seus irmãos, pais, amigos e professores e, ao fazê-lo, aperfeiçoam suas habilidades. Com o tempo, elas talvez aprendam que não se deve lutar contra tudo mas, sim, ter a sabedoria e a coragem de saber quando e onde lutar.

Mais cedo ou mais tarde, porém, os bons Guerreiros aprendem que, para realmente agir sobre o ambiente de uma maneira que acabe lhes proporcionando aquilo que desejam, eles precisam saber o que querem e estar dispostos a lutar por isso. Talvez a coisa mais importante que a pessoa aprende no treinamento para tornar-se mais afirmativo seja ter um claro sentimento do que deseja realizar e, em seguida, de uma maneira clara e respeitosa, dizer aos outros aquilo que quer.

Nem sempre é necessário expressar a nossa verdade. Muitas vezes nós não precisamos contar nada a ninguém. Tudo o que temos de fazer é definir claramente aquilo que queremos, agir com base nesse conhecimento e não perder essa meta de vista, não importando o que os outros possam pensar; outra possibilidade, se estivermos mais fortalecidos, é levar em conta os conselhos e preocupações das outras pessoas e ajustar apropriadamente a nossa estratégia (mas sem modificar os nossos objetivos).

Algumas pessoas perderam pouquíssimas batalhas. Esses "privilegiados"' - que foram encorajados e elogiados nas primeiras ocasiões em que defenderam opiniões, maneiras de agir ou pontos de vista diferentes daqueles dos outros membros do grupo - irão sentir-se fortalecidos e estimulados a tentar isso outras vezes. Se essas pessoas nunca encontram resistência, porém, podem tornar-se arrogantes, impondo seus pontos de vista sobre as outras sem se importarem com o impacto que isso possa produzir sobre elas. Se algum dia chegam a sofrer uma derrota, elas se sentem arrasadas e todo o seu sentimento a respeito do próprio Self é colocado em dúvida.

Se a afirmação dos desejos do indivíduo não implica nenhum custo, é muito improvável que ele venha a ser capaz de fazer a distinção entre as exigências decorrentes do estabelecimento de sua identidade e os caprichos narcisistas. Ironicamente, o indivíduo arrogante, cujo lema é "Eu consigo tudo o que quero", é psicologicamente tão carente quanto uma pessoa que é demasiado medrosa para se erguer e se afirmar. Nenhum deles consegue saber quem realmente é. O preço cobrado pela individualidade motiva cada um de nós a questionar os nossos caprichos e desejos a fim de descobrirmos quais são realmente importantes.


Carol S. Pearson - O Despertar do Herói Interior

O Guerreiro de Alto Nível

Para o Guerreiro do nível mais elevado, a verdadeira batalha é sempre contra os inimigos interiores - a preguiça, a descrença, a desesperança, a irresponsabilidade e a rejeição. A coragem de enfrentar os dragões interiores é o que nos permite enfrentar os dragões exteriores com sabedoria, habilidade e autodisciplina.

O custo da batalha pode ser muito alto, pois o mundo muitas vezes é um lugar difícil de se viver. É importante sermos suficientemente fortes, não apenas para nos mantermos firmes mas também para escolher nossas batalhas. Guerreiros maduros, especialmente aqueles que têm confiança em suas habilidades, não lutam por qualquer motivo. Eles escolhem cuidadosamente as suas batalhas.

Os Guerreiros definem suas metas e criam estratégias para atingi-las. Ao fazê-lo, eles identificam os obstáculos e desafios que provavelmente irão encontrar e planejam o modo pelo qual cada um deles será superado. Eles também identificam os oponentes que podem tentar impedir a consecução dessas metas. Os Guerreiros de nível inferior reduzem a complexidade da situação qualificando os oponentes como inimigos e usando de todos os meios para derrotá-los na guerra, até mesmo matando-os sem nenhum sentimento de remorso pela perda de vidas humanas.
Os Guerreiros de alto nível procuram convencer os outros a apoiar suas metas. Eles compreendem a política das organizações ou comunidades e sabem como granjear apoio para suas causas. Eles sabem como evitar pôr as cartas na mesa até terem a certeza de poder contar com o apoio de que necessitam. A verdadeira batalha é a escolha do último recurso, o qual deverá ser empregado depois de se ter pensado em todas as outras opções - contornar a oposição, confundi-la, controlar sua reação, enganá-la, infiltrar elementos em suas fileiras ou convertê-la. Além disso, os Guerreiros de alto nível sabem quando e como reconhecer que foram vencidos e aprendem com a derrota.

O que evidencia a qualidade de um Guerreiro não é a permanente insistência em persistir na batalha mas sim a consecução de suas metas. Os Guerreiros de alto nível podem preferir recolher-se durante algum tempo, desenvolver sua estratégia, mobilizar e reagrupar suas energias e agir apenas quando estiverem preparados. Por exemplo: uma mulher que estava lutando por uma causa no hospital, onde eventualmente trabalhava, resolveu deixar esse emprego. Embora pudesse ter permanecido e lutado, ela sabia que não iria alcançar os seus verdadeiros objetívos. Ao sair, ela conservou uma maior probabilidade de vir a alcançar suas metas e, tendo provado a si mesma sua coragem, não teve nenhuma necessidade de continuar a luta.

Na verdade, os Guerreiros mais habilidosos nem mesmo são reconhecidos como tais porque a única batalha que ocorre é a da sagacidade, travada nos bastidores. Nos níveis mais elevados, a vitória é alcançada não apenas sem derramamento de sangue mas também sem que ninguém seja humilhado; a paz só pode ser mantida quando todos sentem que foram tratados com justiça.

Os Guerreiros de alto nível sempre inspiram respeito pela sua tenacidade e pela sua avaliação inteligente de pessoas e situações; assim, eles podem lutar quando a luta é necessária e buscar um compromisso criativo sempre que isso for possível. Embora os Guerreiros de alto nível possam preferir a paz, eles não têm medo da luta. Na verdade, em determinado nível eles tendem a deleitar-se com ela, mesmo quando a sensatez prevalece e os confrontos são evitados.

Como pensadores e aprendizes, os Guerreiros cristalizam suas ideias em oposição às dos outros, que eles gostam de desqualificar como erradas (ou mesmo "perigosamente" ou odiosamente erradas) ou inadequadas, fracas, ingénuas ou inconsistentes. Este processo inicialmente predispõe o Guerreiro que existe dentro de cada um de nós a provar que estamos "certos" e os outros "errados", uma posição que encerra uma presunção de superioridade.

Os Guerreiros geralmente se sentem mais à vontade num universo em que as questões relativas à integridade são razoavelmente simples e diretas e é fácil saber quem está certo e quem está errado. O mundo moderno, porém, não é assim. Combater no mundo moderno requer integridade dentro de um universo complexo e ambíguo.

O mundo contemporâneo exige Guerreiros que possam tomar decisões e agir quando nada é absolutamente certo ou errado. A questão, nesse caso, não é simplesmente "Qual é a maneira correta de pensar ou agir?" mas, sim, "O que é correto para mim?'' e, finalmente, "O que é melhor para todos os envolvidos?''

Neste contexto, uma compreensão de que todos vemos o mundo a partir de uma perspectiva diferente e de que nenhum de nós é dono da verdade ajuda o Guerreiro a deixar de lado um modelo de tomada de decisões e resolução de conflitos em que um perde e o outro ganha e a substituí-lo por um modelo em que as duas partes ganham. Se eu estou "certo" e você discorda de mim, então você tem de estar "errado". Mas se eu estou fazendo ou pensando o que é certo para mim e você está fazendo ou pensando o que é certo para você, não existe necessariamente uma oposição, mesmo se estivermos pensando ou fazendo coisas muito diferentes.

Não obstante, a maioria dos bons Guerreiros impõe alguns limites ao relativismo cultural (certamente em relação a atos criminosos ou claramente antiéticos), pois eles têm a ftinção de proteger o reino contra as forças interiores ou exteriores que possam prejudicá-lo ou enfraquecê-lo. Os Guerreiros de alto nível buscam o equilíbrio apropriado entre situações nas quais é necessário respeitar as diferenças e aquelas que exigem uma rápida e vigorosa reparação.

Os Guerreiros também adotam diferentes modelos de luta baseados em seu nível de desenvolvimento. O primeiro nível é o de um combatente que luta na selva. O combate é sujo e a meta é destruir, e não apenas derrotar a oposição (interior ou exterior). O inimigo é considerado completamente mau e, talvez, inumano. Quando o Guerreiro se torna mais civilizado e refinado, o combate é limitado pelos princípios ou regras do fair-play, e a meta passa a ser a derrota da oposição, se possível, sem fazer-lhe mal desnecessariamente. Na religião, por exemplo, pode-se procurar converter os infiéis em vez de matá-los.

No terceiro nível, o único objetivo do Guerreiro é atingir uma meta que seja de amplo interesse social. Quando as metas do Guerreiro são definidas apenas pelo Ego, é provável que elas se realizem em competição com os outros pois, conforme disse Jung, a função do Ego é provar o nosso valor em relação às outras pessoas. Assim, nós iremos aprender a alcançar os nossos objetívos e a triunfar sobre as pessoas que têm outros pontos de vista.

Por fim, quando o desejo está informado pela Alma e o Guerreiro age a serviço do chamamento da Alma, frequentemente não existe nenhum conflito entre aquilo que a pessoa quer realizar e o que contribui para o bem geral, particularmente se conseguirmos desenvolver a capacidade de ouvir e de aprender com as outras pessoas, mesmo (ou especialmente) com aquelas que se opõem a nós. A lição que mais cedo ou mais tarde os grandes Guerreiros acabam aprendendo é a de que não existe maneira de aprender realmente a vencer se não estivermos contribuindo com aquilo cuja doação é motivo de estarmos aqui.

Quando fazemos isso, todos saem ganhando. Assim, os Guerreiros do nível mais elevado procuram soluções que satisfaçam a todas as partes, pois sabem que é do interesse de cada um de nós que todos obtenham aquilo que irá realizá-los e trazer-lhes alegria no nível mais profundo.

Carol S. Pearson - O Despertar do Herói Interior

O que significa ter um lugar sagrado?


MOYERS: Em The Mythic Image, você escreve sobre o centro transformador, a idéia de um lugar sagrado, onde os muros temporários podem se dissolver, revelando algo maravilhoso. O que significa ter um lugar sagrado?

CAMPBELL: Isso, hoje, é uma necessidade absoluta para qualquer um. Você precisa de um quarto, uma determinada hora ou um certo dia em que não leu as notícias da manhã, não sabe quem são seus amigos, não sabe o que deve a quem quer que seja, nem o que lhe devem. É um lugar onde você simplesmente vivencia e traz à tona o que você é e o que pode ser. É o lugar da criação incubativa. No início, você pode achar que nada acontece. Mas se você tem um lugar sagrado e se serve dele, alguma coisa eventualmente acontecerá.

MOYERS: Esse lugar sagrado fará por você o que as planícies fizeram pelos caçadores.

CAMPBELL: Para eles, o mundo inteiro era um lugar sagrado. Mas a orientação de nossas vidas se tornou tão prática e econômica que, à medida que você envelhece, as solicitações do momento se tornam prementes a ponto de você mal saber onde diabo está, ou quais são suas intenções genuínas. Você está sempre fazendo algo exigido de você. Onde está a sua estação de bem-aventurança? Você precisa se esforçar para encontrá-la. Pegue o aparelho de som e ponha uma música de que você realmente goste, ainda que seja uma música piegas, ultrapassada, que ninguém mais aprecie. Ou pegue o livro que você realmente gosta de ler. No seu lugar sagrado, você atinge aquele sentimento de respeito pela vida que esses povos tinham para com o mundo todo em que viviam.

O Poder do Mito

Normose e Normopatia

Entrevista apresentada no programa Saúde Holística, onde o psicólogo e psiquiatra Arthur Salle definine normose e normopatia.




A beleza da naturalidade

Hoje* eu fui informado que bilhões de dólares são gastos em cirurgias plásticas apenas nos Estados Unidos. Quase meio milhão de pessoas, todo ano, fazem cirurgia plástica.

Inicialmente a faixa etária do grupo que costumava fazer essa cirurgia era de mulheres de meia-idade — e era confinado apenas às mulheres — quando elas começavam a se sentir velhas, faziam uma plástica para continuarem jovens, atraentes, por mais alguns dias.

Mas em uma pesquisa recente foi revelado que a maior parte das pessoas que estão fazendo cirurgia plástica nos Estados Unidos são homens, não mulheres, porque agora eles querem ficar jovens durante mais um tempinho.

No fundo, eles se tornarão mais velhos, mas as suas faces mostrarão a elasticidade de um jovem. E o fato mais surpreendente na pesquisa é o de que até mesmo um jovem de 23 anos de idade fez cirurgia plástica para ficar mais jovem.

Esse país é certamente a terra dos lunáticos. Se um rapaz de 23 anos de idade acha que precisa parecer mais jovem...

É tão feio ir contra a natureza. É tão bonito estar em sintonia com a natureza e com qualquer presente que ela traga: a infância, a juventude ou a velhice. Se você aceitar e seu coração estiver aberto, tudo o que a natureza traz tem a sua própria beleza.

De acordo com a minha compreensão — e todos os sábios orientais me apoiam — o homem torna-se realmente bonito e total no ponto mais alto de sua idade, quando toda a tolice da juventude se foi; quando toda a ignorância da infância desapareceu; quando ele transcendeu todo um mundo de experiências mundanas e atingiu um ponto onde ele pode ser um observador na colina — enquanto o mundo inteiro está se movendo lá embaixo nos vales escuros e sombrios, tateando cegamente.

A ideia de permanecer continuamente jovem também é feia. O mundo inteiro deveria conscientizar-se de que forçar a si mesmo a ficar jovem simplesmente torna você mais tenso. Você nunca ficará relaxado.
E se a cirurgia plástica for bem-sucedida, tornando-se uma profissão cada vez mais difundida no mundo, você terá algo estranho acontecendo: todo mundo começará a parecer igual. Todo mundo terá o nariz do mesmo tamanho, o que será decidido pelo computador; todos terão o mesmo tipo de rosto, as mesmas feições.

Não será um mundo bonito; ele perderá toda a sua variedade, perderá todas as suas lindas diferenças. As pessoas se tornarão quase como máquinas, todas iguais, saindo de uma linha de montagem, carros Ford, um a um, igualzinho ao seu anterior — em uma hora, sessenta carros. Vinte e quatro horas por dia isso continua; o turno dos trabalhadores vai mudando, mas a linha de montagem continua a produzir os mesmos carros.
Você deseja que a humanidade também tenha linhas aerodinâmicas, montadas em uma fábrica, todos exatamente iguais, de tal modo que em todo lugar que você for encontre uma Sophia Loren? Isso seria muito enfadonho.
Todo mundo quer viver por mais tempo, mas ninguém quer tornar-se velho. Por quê? Por causa do estágio seguinte. Ninguém está realmente com medo da velhice, mas depois da velhice está a morte e nada mais.

Todo mundo gostaria de viver o máximo de tempo possível, mas nunca se tornar velho, porque tornar-se velho significa que você entrou na área da morte. No fundo, o medo de tornar-se velho é o medo da morte, e somente aqueles que não sabem como viver temem a morte.

A juventude é uma enfermidade da qual o homem se cura um pouco a cada dia. A velhice é a cura. Você passou através de todo o teste de fogo da vida, e chegou a um ponto onde você pode estar inteiramente desprendido, distante, indiferente.

Mas o Ocidente nunca entendeu a beleza da velhice. Eu posso entender, mas não posso concordar com esta ideia do Ocidente: o problema com a vida é que há tantas mulheres lindas — e tão pouco tempo. Essa é a razão de ninguém querer tornar-se velho, apenas para esticar o tempo um pouquinho mais.

Mas eu lhes digo: o problema seria ainda pior se houvesse poucas mulheres e muito tempo! Assim como está, é um mundo perfeito.

Osho, em "Após a Meia-Idade: Um Céu Sem Limites"
(* Palestra proferida em 28 de setembro de 1987)



25 outubro 2010

Constatações

Apesar do dia se apresentar ensolarado, acordei com internas nuvens negras. Mais uma semana se apresentando com o prenúncio da mesmice entediante. Por mais que meu coração há tempos anseie por algo novo, com frescor e sentido, pelo telefone, logo cedo, as mesmas vozes destituídas de energia vindas dos sonâmbulos escravos capitalistas... Nada de novo no front! E como nada se apresenta, fica a questão:

"Morrer pelo conformismo a normose capitalista ou de tédio?"

Não posso mais me submeter a manter "meio amigos", sempre com suas coleções de "tá tudo bem", ou então com seus desgastados assuntos relativos a seus trabalhos escravistas, ou somente em busca de uma opção de distração para seus finais de semana...

Não posso mais me submeter a "meio trabalho"...

Não posso mais me submeter a "meia vida"...

Cheguei no meu ponto de saturação...

A dor nas costas está cada vez mais insuportável e vejo a mesma como um reflexo da "insuportabilidade" do modo de vida que estou ENGOLINDO... Se eu não tirar o fardo das minhas costas, ela nunca vai voltar ao normal, não vai ter remédio que lhe dê jeito.

Estou me desligando dos meus atuais "clientes". Não sei ainda o que vou fazer; só sei que não posso mais continuar fazendo aquilo que não amo.

Bate o maior cagaço, mas, atingi a "linha vermelha" e não tem mais como voltar. Só resta confiar no universo e cruzar essa linha...

E antes que eu me esqueça:

Por favor, não me venha com seus palpites de como eu devo levar minha vida! Trata-se de independência ou morte... Liberdade, ainda que tardia...

Obrigado!

A solidão da visão

Os dois mundos, divino e humano, só podem ser descritos como distintos entre si, diferentes como a vida e a morte, o dia e a noite. As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante, e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo, os dois reinos são, na realidade, um só e único reino. O reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida real desaparecem com a terrificante assimilação do eu daquilo que antes não passava de alteridade. Tais como na história das ogresas canibais, o temor dessa perda da individualidade pessoal pode configurar-se, para as almas não qualificadas, como todo o ônus da experiência transcendental. Mas a alma do herói avança com ousadia, e descobre as bruxas convertidas em deusas e os dragões em guardiães dos deuses.

Todavia, sempre deve restar, do ponto de vista da consciência vígil normal, uma certa inconsistência enigmática entre a sabedoria trazida das profundezas e a prudência que costuma ser eficaz no mundo da luz. Daí decorre o divórcio comum entre o oportunismo e a virtude, e a resultante degenerescência da existência humana. O martírio é para os santos, mas as pessoas comuns têm suas instituições, que não podem deixar que cresçam como lírios nos campos; Pedro continua a sacar da espada, tal como no jardim, para defender o criador e mantenedor do mundo. A bênção trazida das profundezas transcendentes torna-se racionalizada, rapidamente, em não-existência, e aumenta em muito a necessidade de outro herói para renovar a palavra.

Como ensinar de novo, contudo, o que havia sido ensinado corretamente e aprendido de modo errôneo um milhão de vezes, ao longo dos milênios da mansa loucura da humanidade? Eis a última e difícil tarefa do herói. Como retraduzir, na leve linguagem do mundo, os pronunciamentos das trevas, que desafiam a fala? Como representar, numa superfície bidimensional, ou numa imagem tridimensional, um sentido multidimensional? Como expressar, em termos de “sim” e “não”, revelações que conduzem à falta de sentido toda tentativa de definir pares de opostos? Como comunicar, a pessoas que insistem na evidência exclusiva dos próprios sentidos, a mensagem do vazio gerador de todas as coisas?

Muitos fracassos comprovam as dificuldades presentes nesse limiar que afirma a vida. O primeiro problema do herói que retorna consiste em aceitar como real, depois de ter passado por uma experiência da visão de completeza que traz satisfação à alma, as alegrias e tristezas passageiras, as banalidades e ruidosas obscenidades da vida. Por que voltar a um mundo desses? Porque tentar tornar plausível, ou mesmo interessante, a homens e mulheres consumidos pela paixão, a experiência da bem-aventurança transcendental? Assim como sonhos que se afiguram importantes durante a noite podem parecer, à luz do dia, meras tolices, assim também o poeta e o profeta podem descobrir-se bancando os idiotas diante de um júri de sóbrios olhos. O mais fácil é entregar a comunidade inteira ao demônio e partir outra vez para a celeste habitação rochosa, fechar a porta e ali se deixar ficar. Mas, se algum obstetra espiritual tiver, neste entretempo, estendido a shimenawa* em torno do refúgio, então o trabalho de representar a eternidade no plano temporal, e de perceber, neste, a eternidade, não pode ser evitado.

do livro “O herói de mil faces” – Joseph Campbell

*Shimenawa (标縄注连縄七五三縄, literalmente, "colocando o cabo") são pedaços de trançado de arroz palha corda usada para rituais de purificação do Xintoísmo religião. Eles podem variar em diâmetro de poucos centímetros até vários metros, e são vistos frequentemente enfeitados com shide. Um espaço vinculado shimenawa geralmente indica um sagrado ou puro espaço, como a de um santuário xintoísta.

O labirinto já é conhecido

"Não precisamos nem mesmo nos arriscar sozinhos na aventura, pois os heróis de todos os tempos já foram à nossa frente. O labirinto já é conhecido, basta seguir os passos do Herói. E aonde pensávamos encontrar algo abominável encontraremos um deus. E onde pensávamos que teríamos que matar alguém, teremos de matar a nós mesmos. E quando pensávamos que teríamos que viajar para fora, chegaremos bem no centro de nossa própria natureza. E aonde pensávamos estar sozinhos, estaremos em companhia do mundo inteiro."

Joseph Campbell, em O Poder do Mito.

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!