Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

31 março 2012

Constatações

Quando se nasce num lar escravo, quando se frequenta um escola escrava, cuja educação é ministrada por escravos, quando se ingressa como escravo num mercado de trabalho escravo, gerenciado por outros escravos, é dificilíssimo acreditar no estado original de realeza.   

27 março 2012

Constatações sobre educação


Quando criamos nossas crianças com base num sistema educacional voltado para o ajustamento servil ao ego social, não podemos depois reclamar, quando elas com seus egos devidamente estruturados, aos nossos egos cristalizados, fizerem descabidas exigências. 

O essencial estado de impotência


Quando se está confuso, vivendo num constante estado de conflituosa ansiedade, devido a incapacidade de, por si mesmo, compreender tal estado de confusão, e pela compreensão da mesma, dissolvê-la, há sempre uma forte tendência de se manter numa constante busca externa de algo ou alguém que possa apresentar uma fórmula, um modelo, um método, uma pratica comportamental pela qual seja possível — sem o trabalhoso e por vezes doloroso movimento de observação do ego — ver-se livre de tal confusão. Nesse estado de confusão, quando se depara com algo "aparentemente novo", algo que soe agradável à mente, entra-se de cabeça num cego movimento de crença que, inicialmente, impede a ação da observação lógica e racional, pela qual surge a luz do discernimento que traz consigo a percepção do falso e do verdadeiro. Nesse movimento de irrefletida entrega à nova crença, momentaneamente, ocorre uma alteração na "qualidade" do ego, qualidade esta que causa a ilusão, o auto-engano referente a dissolução do ego. Nesse processo de crença, o ego, momentaneamente protegido pela ilusão, se encontra num estado narcotizado, adormecido, aparentemente sem conflito. No entanto, o ego, ainda se encontra ai, no aguardo da primeira influência de energia contrária, a qual, inevitavelmente, surgirá quando do confronto com outro ego em semelhante estado, ou em estado potencializado. 

Quando se está com sede, o mero se sentar em silêncio diante da transparência da garrafa, apenas observando seu cristalino conteúdo, sem que se remova a destacada e colorida tampa, não há como ter a sede saciada. Do mesmo modo, sem a remoção do enfeitado ego por meio da ação do discernimento, não há como saciar a sede de plenitude e bem-estar. 

Como nas histórias infantis, o homem ao longo dos anos, vive em busca de uma palavra sagrada, de um mantra capaz de libertar seu "gênio" da garrafa de seu ego. Acredita ele que, pela simples repetição de tal palavra, como num passe de mágica, de forma instantânea, sem esforço, terá sua triste realidade transformada por esse ser de inteligência superior. O homem com seus sistemas de crença tem criado os mais variados tipos de mantras, de orações, cuja finalidade é o alcance do silenciamento de sua mente e através disso, a manifestação de um estado livre de medos, ansiedades e conflitos. Os mantras, as orações, vão desde o "Shazan" e o "Abracadabra", ao "Rama Rama, Hare Hare ", o  "Nam-Myoho-Rengue-Kyo", o "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", o "Ho'oponopono", o "Eu Sou" e outros tantos mais. Seria preciso uma existência inteira para catalogar os diversos mantras e orações criados pelos homens. Por fim, no que diz respeito a dissolução do ego, o ineficaz resultado desses mantras e orações, de muitos já é conhecido. 

Devido a sua insegurança, vive o homem em busca de algo ou alguém que represente uma causa e, quando o pensa ter encontrado, nas mãos deste (e em seus enrustidos cofres), deposita sua energia, seu dinheiro, sua mente e coração. Tão logo torna-se ciente da recente ilusão,  passa então o homem a atacar e perseguir seu até então alvo de devoção. Esse tem sido o processo que dá vida ao movimento de "caça às bruxas", ao movimento de busca por um "bode expiatório" para justificar a própria incompetência diante da capacidade de compreensão de si mesmo, por si mesmo. 

No que diz respeito a descoberta da verdadeira natureza humana — totalmente livre das débeis tendências do ego — não existe palavra mágica, não existe pílula mágica, não existe porção mágica, não existe água benta ou chá de erva milagrosa; não existe um super-homem externo dotado de super-visão que possa libertar de forma fácil e indolor nosso estado "demasiado humano", não existe "despacho" que nos liberte de nossas conscientes e inconscientes tendências e apegos psicológicos. É preciso trabalho, seriedade, paciência e, principalmente, paixão pelo discernimento.

Enquanto existir a crença no externo, enquanto existir a ilusão de potência em algo externo, o essencial estado de impotência — sem o qual não ocorre o findar do desejo — não terá a mínima possibilidade de manifestação. É só no estado de impotência e rendição que o homem abraça a sua solidão, a qual traz consigo, as sementes de sua integridade, liberdade, Felicidade e Amor que são algumas das qualidades do demasiado humano, do Super-Homem-Novus. Se de verdade existe um Super-Homem, esse, é o homem amante da verdade, o combatente da auto-ilusão, o homem que não mais faz uso da antiga capa protetora do "eu"; o Super-Homem surge quando da compreensão de si mesmo, por Si mesmo. Sem o discernimento que chega pelo amor à verdade, de verdade, não há amor.  É só aqui que o homem deixa de acreditar em histórias, passando então — sem a preocupação de buscar por isso —, a fazer parte da história. E é só através desse movimento que sua história pode, no eterno agora, conhecer um final feliz.
nj.ro@hotmail.com

26 março 2012

Carta resposta para um amigo no deserto


Estimado amigo "X": Paz e bem!

Antes de mais nada, é preciso sempre ter em mente que tudo, mas tudo mesmo, é só por agora, que tudo, mas tudo mesmo, também passará!

Você está atravessando o seu grande deserto e agora, se encontra muito próximo do que é conhecido como "A noite escura da alma" ou, como diziam os antigos padres do deserto, a vivência do "demônio do meio dia"... Este é o demônio da meia vida, o demônio que fica num Portal e que tenta impedir sua entrada numa nova maneira de ser e estar na vida de relação. Por mais duro que pareça ser o seu momento, aqui, é preciso ter isso em mente e seguir viagem, feito solitário peregrino. É nesse deserto que toda forma de dependência emocional nos é apresentada, onde nos deparamos com essa tendência neurótica de querer agradar à todos, de ser bem quisto, de receber a condicionada — e quase sempre interesseira — aprovação de todos. É nesse momento que vamos descobrir se queremos de fato seguir nosso coração ou continuar aceitando que os outros controlem as batidas e direção do mesmo. É nesse momento de deserto que somos testados para ver se vamos dar o amor a nós mesmos ou se vamos continuar insanamente esperando amor daqueles que não fazem a menor idéia do que seja a realidade do amor. É no deserto que vamos aprender a nos pegar no colo, a nos proteger de modo saudável, a não fugir de nós mesmos, a nos aceitar, a nos amar para, depois, pelo conhecimento direto do Amor, distribuir amor sem a velha doença de esperar em troca. Neste momento de deserto, o olhar e a espera com relação ao comportamento do outro, em nada pode nos ajudar. É como numa UTI, onde toda atenção deve estar sobre nós mesmos, sobre nossos pensamentos, sentimentos e emoções, observando tudo, sem se permitir qualquer forma de irrefletida e compulsiva reação. É nesse momento deserto que os adultos são distinguidos dos adolescentes. O preço de entrada, de fato, é bastante doloroso e é por isso que a grande maioria da humanidade, nunca escolhe pelo caminho no qual este deserto se apresenta; não é atoa que vemos tantos adultos, adulterados e adulterantes. É neste deserto que percebemos que não somos nada daquilo que vemos, sentimos ou experienciamos, que na realidade, nossa natureza é essa consciência que a tudo vê, sente e experimenta. Neste deserto, não podemos trair o que nos pede o coração e é preciso ser absurdamente forte para resistir as falas obsessivas e desconexas criadas pela imatura mente tagarela. Caro, estimado e corajoso amigo: eu lhe incentivo para ficar com você, abraçar você, honrar você, ouvir você, mas não o "você" que você pensa ser, mas sim o verdadeiro você que é esse que vê toda essa insanidade, seja interna como externa.

Tenha em mente que, num mundo que é todo ego, em que todos estão doentes, todo aquele que se aproxima da saúde mental e emocional, será sempre mal visto em seu tempo. Sempre foi assim e parece que sempre será. Neste doloroso período de deserto, precisamos ligar o "fodômetro" quanto ao que os outros possam pensar ou dizer sobre nós. Fique com você, ouvindo o melhor de você, essa parte de você que escolhe pela saúde, pelo amor, pela felicidade, pela liberdade, que escolhe pelo discernimento que aponta para a amorosidade. Se preciso for, se assim a vida lhe apresentar, que fique só, no ostracismo, mas, de modo algum, opte pelo auto-abandono, de forma alguma opte pelo velho modo de ser e estar no mundo. Lembre-se que o coro dos contentes, de modo algum, sabe o que é amor e liberdade. Deixe que esse velho modo de ser e estar no mundo caia feito folha seca de outono; não é preciso fazer nada, é só continuar ai, sentado, testemunhando... Sei que a mente vai pedir sempre por ação, que vai lhe comparar com o modo de vida dos outros ao seu redor, mas tenha em mente que, todos aqueles que vivem na mente, que desconhecem seu ritmo próprio, logicamente vão lhe incentivar — e por momentos obrigar — a tomar qualquer tipo de ação, mesmo que irrefletida... O mundo não suporta homens silenciosos, homens que se permitem o questionamento e a meditação... Todos temem um homem senhor de seus pensamentos e emoções...  É no deserto que deixamos de ser "Maria vai com as outras", que deixamos de ser "gado marcado", massa de manobra, ou, como no filme Matrix, uma simples "pilha descartável" à serviço da manutenção de um sistema profundamente desumano. 

Meu querido e estimado amigo e irmão: nadamos muito até aqui; não se permita, morrer na praia. Como dizia Osho: "Deixe que o velho homem morra"... Deixe que um novo homem, ressuscitado pela ação direta do Amor, traga seu perfume ao mundo. Você, agora, é um botão de flor, prestes a se abrir ao mundo. O mundo, mais do que nunca, necessita de seu diferenciado perfume. Daqui deste lado, de coração, honro sua coragem e seu empenho na busca da descoberta da sua mensagem, única e intransferível, cuja grande massa de "homens cópias", de forma inconsciente, ansiosamente, espera. 

Em vista disso é que lhe incentivo: Força e avante! No sagrado exercício da paciência, siga seu coração! E lembre-se: isso também passará!

Seu sempre amigo e irmão, 

Nelson Jonas

Não seja uma nota falsa


Não há nada a ser feito quando você, em sua carteira, se depara com uma nota falsa, a não ser aceitar o prejuízo e, nessa aceitação, obter o lucro da conscientização do falso. É natural que surja em você o forte impulso para passá-la adiante mas, se assim você o fizer, estará ampliando o poder circulante de ambas as falsidades: a da nota e a sua. Você terá que aceitar o prejuízo, uma vez que ninguém vai querer ficar com tal nota em seu lugar. O máximo que você poderá fazer com essa nota é colocá-la de modo visível para assim evitar futuros lapsos de atenção e presença. 

É um sinal de falta de maturidade, autonomia e integridade, justificar as próprias atitudes insensatas através de semelhantes atividades exercidas por outros iludidos insensatos. Portanto, se você aspira a verdadeira liberdade da natureza humana, então, não se conforme em ser uma cópia, não se conforme em ser apenas mais um, não se conforme em agir igualmente à maioria... Ouse ser você mesmo e, siga sempre, a autenticidade das notas de seu coração. Lembre-se sempre: no balanço final das contas, o falso, sempre será descartado. Portanto, não balance: só o Real é que será devidamente valorizado. 


25 março 2012

Vícios de linguagem

Amigo é alguém que aparece para ajudar
e não aquele que ajuda para aparecer...

O estado natural, o estado original do homem, era o estado de silêncio contemplativo. Através de sua contemplação, surgiu a necessidade de tornar comum ao seu clã, aquilo que por ele era percebido como de fundamental importância para a melhoria do modo de estar e se relacionar com o mundo; disso surgiu a necessidade de comunicação, ou seja, a ação de tornar comum. No entanto, seu silencioso e contemplativo estado natural, sem que o homem percebesse, foi dando lugar ao imperioso e irrefletido vício da linguagem. Por não mais exercitar o silêncio contemplativo, o homem passou a falar demais sem ter nada de nutritivo conteúdo para dizer e assim, a superficialidade do comum, tornou-se o conteúdo de sua pobre comunicação.

24 março 2012

São Thomé das Letras: a cidade da sincronicidade

Gostaria de compartilhar um pouco da experiência de sincronicidade que me levou a conhecer e me apaixonar pela cidade de São Thomé das Letras. Antes, acho interessante trazer uma definição sobre a palavra "Sincronicidade". Segundo os arquivos do site Wikipédia, Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Desta forma, é necessário que consideremos os eventos sincronísticos não a relacionado com o princípio da causalidade, mas por terem um significado igual ou semelhante. A sincronicidade é também referida por Jung de "coincidência significativa"... Em termos simples, sincronicidade é a experiência de ocorrerem dois (ou mais) eventos que coincidem de uma maneira que seja significativa para a pessoa (ou pessoas) que vivenciaram essa "coincidência significativa", onde esse significado sugere um padrão subjacente. A sincronicidade difere da coincidência, pois não implica somente na aleatoriedade das circunstâncias, mas sim num padrão subjacente ou dinâmico que é expresso através de eventos ou relações significativos... Acredita-se que a sincronicidade é reveladora e necessita de uma compreensão, e essa compreensão poderia surgir espontaneamente, sem nenhum raciocínio lógico. A esse tipo de compreensão instantânea Jung dava o nome de "insight".

Pois bem! Uma vez exposta uma breve explanação a respeito do significado da palavra sincronicidade, gostaria de compartilhar algumas das experiências que tive e que se mostraram profundamente significativas e indicativas durante a longa jornada de autoconhecimento que teve seu início aos meus 24 anos de idade, após minha "depressão iniciática". A que mais me tocou se refere ao sincronismo que acabou por me levar a conhecer São Thomé das Letras, a qual tem se mostrado, para mim,  um energético terreno de transcendência consciencial, um "Grande Portal para o Ser". 

Lembro-me que estava num período de profunda turbulência causada pelo questionamento de valores, comportamentos e tendências. A realidade se mostrava profundamente obscurecida de significado e me sentia mais perdido do que barata em dia de mudança. Naquele período, eu mantinha juntamente com meu irmão, uma pequena agência de criação, arte e publicidade, voltada para o segmento de moda, em específico, o Surfwear. Eu passava o dia todo criando e acompanhando o desenvolvimento de estampas para camisetas de conceituadas marcas do mercado de surf. Em meio a criação — a qual era muito aceita pelo mercado —, eu era sempre tomado por um sentimento de profunda insatisfação. Não conseguia ver sentido em passar minha vida criando apenas mais uma imagem para um produto de consumo, rapidamente descartável. Aquilo, apesar de encher o meu bolso, esvaziava o pouco que ainda mantinha em meu coração. Num fim de tarde de sexta-feira, quando já não havia mais nenhum funcionário no estúdio, enquanto desligava os computadores, em meio à uma profunda angústia, lembrei-me da fala de uma jovem após o término de uma palestra que eu havia feito numa cidade serrana do estado do "Espírito Santo", palestra que versava sobre o tema "A Neurose da Família Disfuncional". Nunca antes tinha visto essa moça e ela, muito sutilmente, se aproximou me perguntou:

— Você poderia me permitir uma sugestão? — Consenti com um sorriso

— Olha só: não sei por que meu coração pediu para que eu lhe dissesse isso... Quando você estiver preparado, vá conhecer a cidade de São Thomé das Letras... Sinto que você tem tudo a ver com ela.

— Não a conheço, aliás, nunca sequer ouvi falar de sua existência. Mas por que você acha que devo conhecê-la? 

— Como disse, não sei lhe explicar, mas foi o que meu coração pediu para lhe dizer. 

Uma vez dito isso, nos despedimos e nunca mais encontrei essa moça novamente. Ainda havia um dos computadores ligados e decidi fazer uma pesquisa na internet para saber um pouco a respeito da cidade. Na época, não haviam muitos sites e os poucos que haviam, traziam apenas alguns números de telefones e algumas fotos. Lembro-me que, uma das fotos que me chamou muito a atenção, foi  a de um adesivo que trazia a seguinte frase: "São Thomé das Letras: o homem sobre as pedras". Aquela frase causou um certo impacto, foi como uma confirmação de um chamado. No entanto, como estava ainda fragilizado pelos sintomas da recém superada depressão, vendo a quantidade de quilômetros a ser percorrida, o medo e o comodismo me fizeram ser displicente com tal chamado. Achei melhor ficar em São Paulo e na manhã do dia seguinte, como já era de costume, ir para alguma livraria em busca de algum livro que me tocasse o coração. No dia seguinte, minutos antes de abrir as portas de um grande shopping da zona norte de São Paulo, estacionei o carro, numa vaga, bem ao lado de um "Voyage" cinza metálico. Haviam muitas vagas pois o estacionamento ainda estava vazio. Enquanto acompanhava o fechamento do vidro da janela da porta esquerda do carro, na janela traseira do Voyage, como uma intimação para a viagem, lá estava o mesmo adesivo visto no dia anterior. Isso me deixou completamente perplexo. Olhei em volta, para as tantas vagas vazias e me perguntei: "Por que fui parar justamente ali, ao lado daquela mensagem?" Juntamente com a pergunta, novamente surgiu o impulso para seguir viagem, mas, novamente, o medo me impulsionou a me manter na ilusória segurança do conhecido. Lembro-me que passei o dia nesse shopping, protegido na segurança da livraria à espera da reunião de um dos grupos anônimos da qual fazia parte, a ter seu início às 18:30 horas na região sul de São Paulo. Movido pela ansiedade, cheguei no local com uns 15 minutos de antecedência. A sala da reunião ficava bem na entrada do salão da Igreja, onde no momento, ocorria a celebração de uma missa. Todos haviam acabado de se sentar e o padre começava o sermão do dia. Decidi sentar e ver se dele, podia aproveitar algo e, para minha surpresa, quais foram as primeiras falas de seu sermão?...

— "Pedro, tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha igreja."

Imediatamente após esta frase chegar aos meus ouvidos e coração, nem dei tempo para ação contrária da mente. Levantei-me e fui direto para casa, arrumar as malas, confirmar o itinerário e um local para me hospedar. Consegui pousada numa comunidade local chamada "Harmonia" — o nome trazia bem a essência daquilo que eu mais ansiava. Na manhã seguinte, por volta das cinco da manhã, segui viagem rumo à um dos grandes momentos de minha vida, onde vivi experiências místicas que as palavras não conseguem traduzir. Durante a viagem, a mente não parou um só instante de tentar instalar o sentimento de desistência... "Isso é loucura! É melhor você voltar! E se bater a depressão? O que você vai fazer sem sua rede de apoio?"... Essas eram algumas das conflituosas falas que surgiam em minha mente e que, através de um forte impulso do coração, consegui à elas não dar ouvidos. Mesmo vacilante, segui caminho... 

Quando, pela primeira vez na estrada, ainda longe, pude ver o branco causado pela mineração em suas lindas serras, uma forte emoção tocou meu coração, a qual instalou o tranquilizador sentimento de que estava no caminho certo. Parei o carro e tomado por uma indescritível alegria, chorei.

Logo que estacionei o carro ao lado da igreja, fui abordado por dois policiais que me deram as boas vindas com uma geral no meu carro. Enquanto eles revistavam o carro, eu revistava o local. Do outro lado da praça, uma loja com o nome "Harmonia". Depois da blitz, já na loja, conversando com a atendente, para minha surpresa, outra poderosa sincronicidade: ela havia trabalhado num centro de tratamento para dependentes químicos no qual já havia por duas vezes realizado palestras sobre "A vergonha tóxico e o processo compulsivo". Depois de viajar mais de 500 Km, depois dos guardas, a primeira pessoa com quem conversei, ter alguma relação com meu passado, foi um forte sinal de que tudo aquilo não era apenas uma simples viagem. 

Permaneci por sete dias na Comunidade Harmonia, num retiro de silêncio, a base de uma alimentação lacto-vegetariana. A maior parte do dia, se não estava na Comunidade, passava a base de frutas e água, acompanhado do livro  "Cuidar do Ser", escrito por Jean-Yves Leloup, em algum canto das montanhas de pedra. Foi minha primeira experiência de deserto consciente, a qual me brindou com insights estruturantes que apontaram um novo rumo e sentido para minha Vida. Desde então, sempre que posso, volto para esta cidade, que em sua simplicidade, trouxe novo sentido para meu coração. Foi nela que percebi que, para ver com clareza é preciso boa dose de maluco beleza.  

23 março 2012

A difícil arte de vivenciar o deserto - parte II


No deserto, há um profundo estado de ansia por completude, por conexão com algo que traga uma resposta capaz de silenciar o estado de tensão gerada por tamanha ânsia. É como uma incapacidade de estar dentro do corpo, uma extrema necessidade de sair de dentro de si mesmo, de dentro do congestionado fluxo de vozes mentais e seus resultantes sentimentos. A inquietude toma conta o corpo todo, começando pela mente, pelo cérebro. Os pensamentos são desconexos, sem realidade, não seguindo nenhum raciocínio lógico. A "outrite" — o desfoque pelo comportamento alheio — é quase que uma constante. A ânsia pede pela busca de respostas em livros, sites, blogues, vídeos, filmes, frases, e-mails, nos quais entramos por várias e várias vezes no decorrer do dia — o que pelo menos é um grande avanço diante da anterior entrega aos já superados vícios comportamentais.

Se há o fechar dos olhos para a meditação, em questão de minutos, a mesma tende a dar lugar para o estado de letargia que provoca a dispersão pelo sono. Por mais que se tente o silenciar da mente, o mesmo não ocorre e o seu desordenado fluxo é tão rápido que torna quase que impossível o seu acompanhamento. 

No estado de deserto, há uma profunda falta de sentido e direção, a qual acaba impulsionando ao isolamento de pessoas cujas falas não tragam em si, o interesse pelo questionamento e pela busca de real sentido e direção. Há também, por vezes, uma intensificação da presença de um "zumbido mental", seguido após momentos de ataque cerrado por parte do conteúdo acelerado da mente. Nestes momentos, a prática da escrita parece servir de ancora, uma espécie de fio terra que impede a identificação com o conteúdo mental e com a consumação de atividades que, uma vez feitas, por não saber lidar com o resultado das mesmas, tornam-se fatores agravantes para a proliferação do conflituoso conteúdo mental.

Essa imperiosa necessidade de resposta interna que se apresenta nos momentos de deserto, impede a motivação para qualquer tipo de atividade externa que não aponte para a resolução de tal resposta, capaz de por fim ao silencioso conflito interno. Nesses momentos, falar sobre paz, felicidade, liberdade e amor seria uma profunda leviandade.

Na experiência do deserto, ocorre também um forte impulso para o encontro com alguém que se identifique, que também comungue dos mesmos sentimentos, necessidades e impulsos pela busca de respostas, para através desse encontro, através da fala, quem sabe ser possível remediar o sofrimento causado por tal inquietude. No entanto, ao mesmo tempo, já encontra-se também instalada a consciência de que remediar é um retorno em ré para o médio conhecido, o que é totalmente incoerente com a necessidade que se apresenta: um avanço para o estado de silêncio e bem-estar interior.

A difícil arte de vivenciar o deserto


Por que é tão difícil a vivência da experiência do deserto? Porque no deserto, estamos sós, desprotegidos física e psicologicamente. Não temos onde nos segurar, onde nos apoiar, onde buscar por abrigo e proteção. Não há como buscar por identificação e isso, para o ego, que vive em busca de segurança psicológica, é um sentimento mortal. É por isso que muitos não conseguem atravessar esse paradoxal período fecundo e, num momento de desespero, recorrem a atitudes potencialmente trágicas. Isso ocorre porque estas pessoas se identificam com o desesperante clamor do ego que pensam ser. Em vista disso, a experiência da vivência do deserto serve tanto como um portal para a sanidade do Ser, como para o limbo da psicopatia do não-ser. 

Na vivência do deserto é que toda estrutura do ego, trabalhosamente construída por anos, tem suas bases implodidas, colocando ao chão toda forma de identificação. Para o ego, de fato, este é um período de profundo terror e confusão. Não se trata aqui da demolição de uma laje específica, mas sim, da demolição completa de sua estrutura, de modo que nada de sua estrutura possa ser reaproveitado. 

No deserto, a crença não serve para nada; no deserto, o simples fato de acreditar na água, não traz o saciar da sede, não traz o seu frescor. No deserto, a experiência passada do frescor da água, também não traz o saciar da sede. No deserto, a projeção da idéia da água, também não sacia a sede. Crença, experiência, projeções de nada servem quando nos encontramos assolados pelo deserto. 

No deserto, a crença na possibilidade de uma mente silenciosa, de uma mente em que o pensamento cessa, de que vale? No deserto, o que vale é a vivência, a observação, o testemunhar daquilo que se apresenta, passo a passo, momento a momento, ainda que de forma vacilante. No deserto, a coisa fica difícil porque ali, já não há para onde fugir, já não há onde se pisar com segurança; o deserto é ego-enfrentamento, é a solidão que dessolidifica, apontando sempre, para a original construção, onde enfim, conhecemos o Grande Arquiteto Construtor.  


22 março 2012

OFF ON, HARE OM: O mantra da modernidade


Uma vez que, em si mesmos, não vivenciamos nenhum sentido de profunda conexão, permanecemos num constante estado de sede de plenitude e conexão, a qual tentamos saciar — como que com água salgada — por meio das mais variadas formas de avanço tecnológico, entre elas, a TV, internet, celular, e agora, a bola da vez, os tablets. Além disso, com químicos — começando pelo açúcar —, tentamos anestesiar a falta de química de nossas cotidianas relações. No entanto, por mais que tentemos nos enganar, por mais que tentemos fugir de nossa realidade interna, quando apertamos a tecla "OFF", à nossa espera, lá está ela, sempre "ON": a parte anônima de nossa sociedade, sempre disfarçada e nunca devidamente abraçada... Solidão.


21 março 2012

Campanha de Páscoa

Recebi pelo Facebook, a seguinte campanha:

"Não compre o ovo, compre a barra
e vamos acabar com essa putaria"

Num primeiro lance, até parece que existe inteligência em tal campanha... Mas, pensando bem:

O melhor mesmo é nem comprar, deixando assim, de participar desse imenso circo, cujo palhaço, não se encontra no picadeiro, mas sim na platéia, como adormecido espectador consumidor!

nj.ro@hotmail.com

20 março 2012

O pássaro e os cães

Em frente ao portão de casa, há uma pequena árvore onde um pequenino passarinho, trabalha de forma insegura, devido aos latidos de nossos cães, na construção de um seguro ninho, onde possa cooperar com a luz da expressão da criação. Do mesmo modo, a Grande Vida, trabalha no ninho do meu coração, enquanto os barulhentos e ferozes cães do ego, pela ação do medo, tentam abortar o divino processo. 

O caminho do Coração

“Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim,
melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho,
e se submergisse na profundeza do mar."(Mt 18, 6)
Uma verdade só pode ser verdade quando, de verdade, você se encontra pronto para a desestruturante energia dessa verdade estruturante. Sem que haja em você o necessário estado de abertura e receptividade, sem que exista em você esse estado de maturidade, o precoce conhecimento de uma verdade, pode se mostrar terrivelmente fatal. 

Com certeza, você nunca presenciou uma mãe tentando alimentar seu filho recém-nascido, colocando em sua mamadeira o conteúdo de uma suculenta feijoada ou então, o teor alcoólico de um vinho barato. Também nunca deve ter presenciado um professor de primeiro anistas, ministrando aos seus alunos, complexos cálculos de álgebra. Como nos dizeres de um grande poeta da Vida: 

"Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento". (Hebreus 5:12)


Em vista disso é que lanço o incentivo: Seja lá qual for o seu momento, seja lá aquilo que você busca, seja profundamente sério, dedicando a necessária paixão, colocando a totalidade de sua mente e coração no objeto de sua busca. Essa mesma seriedade e paixão, a seu tempo, lhe revelará a verdade ou a ilusão sobre isso que você busca. Se aquilo que você busca ainda serve ao propósito da revelação da verdade que você é, essa mesma verdade fará uso disso para que você cresça em percepção e discernimento. Pela percepção e discernimento das limitações do irreal é que a verdade nos apresenta o momento certo de, com gratidão na mente e no coração, abrir mão daquilo que nos serviu de estágio inicial para a percepção do real. Um novo nível de maturidade se apresenta quando, de forma agradecida e destemida, somos capazes de "levantar, tomar nosso leito e seguir viagem".

Como na natureza física, nossa natureza psicológica possui seu original e divino ritmo. Portanto, toda manifestação da natureza, nunca dá saltos; forçar saltos quase sempre se mostra uma grande causa de conflituosos cataclismos. Portanto, é preciso respeitar, honrar e incentivar o momento de cada um e, para tanto, se faz necessário a fundamental presença de uma inteligência amorosa.

Se você é um cristão, seja sério e apaixonado pelo estudo de si mesmo através do conteúdo do cristianismo. O mesmo para outros sistemas de crença organizadas. Seja lá qual for o "ismo" que se apresente diante de seu momento, em sua mente e coração, seja sério e apaixonado quanto ao uso desse organizado "ismo" para fazer frente ao "ismo" de seu ego, causador de tanta desorganização.

Em vista disso, talvez você esteja se perguntando agora: "Qual é então o melhor caminho para dedicar minhas energias e paixão?"... Muitos já disseram anteriormente que não existe caminho para a revelação de Si mesmo; outros já se auto-intitularam como sendo o caminho. Não cabe a mim, afirmar qual deles está com a razão, qual deles é o mais fiel portador da verdade. O que cabe aqui, como um fiel companheiro de viagem, é compartilhar daquilo que trago agora na mente e coração. Portanto, só posso lhe responder que, o melhor caminho, é aquele que se expressa pelo seu coração e que revela, passo a passo do caminho, a criativa chama de seu coração.

Se você for sério e dedicar paixão à escuta de seu coração, por meio dos favoráveis resultados de tal escuta atenta, você começará a desenvolver, sem que se perceba, uma profunda confiança nesse solitário processo de escuta. Como disse antes, a natureza não dá saltos e, do mesmo modo, ocorre com relação a confiança na escuta da fala mansa e suave de nosso coração. Portanto, é natural que durante o período de maturação dessa capacidade de confiança e entrega naquilo que em Si mesmo se escuta, buscar validação de tal conteúdo, nas palavras, nos textos, nos áudios, nos vídeos em toda forma de arte proveniente de homens e mulheres que, em nosso coração, sentimos terem conseguido sucesso na realização daquilo que também buscamos. Tal qual o inseguro e imaturo adolescente que busca reforço na experiência de seus pais biológicos, é natural no processo do "inseguro buscador", tatear por ecos de seu interior, refletidos na experiência de seus eleitos "pais psicológicos-espirituais".

Por isso que insisto que é uma espécie de "crime espiritual", tornar órfão todo aquele que ainda não se encontra devidamente preparado para a faze adulta que traz consigo as portas de uma autonomia espiritual. Um bom mestre sabe quando deve incentivar o aluno ao estudo das palavras de outro mestre, quando percebe que o aluno ainda não se encontra preparado para o conteúdo de seu mestrado. Um bom mestre incentivará sempre o aluno a dedicar seriedade e paixão naquilo que busca. Um verdadeiro mestre saberá quando deve sair do caminho; saberá zelar pela integridade emocional de seu aluno e, de forma alguma, será levianamente irresponsável, forçando-o à uma verdade para a qual ainda não se mostra suficientemente amadurecido. Em outras palavras, um verdadeiro mestre "dará a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus"; trará consigo a percepção, o discernimento e a inteligência amorosa que incentiva ao outro para o encontro do mestre que melhor lhe aponte a descoberta do Grande Mestre que traz em si mesmo.       

Todo caminho, toda busca, se verdadeiros forem, sempre apontarão para o "caminho do Si mesmo", sempre nos impulsionarão para a quebra das amarras psicológicas e para o mergulho no desconhecido, o qual torna Deus, conhecido.

nj.ro@hotmail.com  

A Graça não pode ser manipulada


Como pode alguém que afirma — textualmente e verbalmente — que sua "iluminação", sua "realização" se deu através de um livro de Ramana Maharshi, vir à público afirmando que, por meio dos livros, você não pode conseguir o ambiente propicio para que a ação da Graça possa em si ocorrer? Como pode alguém vir a público afirmar que não é através das palavras de terceiros que a realização pode ocorrer e depois vir à público, lançar convites para a contemplação de sua fala? Como pode alguém afirmar que a realização só pode ocorrer com você e em você, quando você não está lá, e depois vir à público lançar convites para ouvir o que ele tem a dizer — quando ele está lá —, incentivando para que o "neófito buscador", não dê atenção aos convites lançados por outros homens? Como pode alguém que sabe que o silêncio é o mais importante, não convidar então, para que o ser humano fique só, com sua solidão, ao invés de ter que vir até ele, para juntos então, obter o silêncio "que funciona"? Isso, para mim, é uma fala muito dual, contraditória e que em si, esconde seu real interesse e que em suas raízes mantém o preconceituoso e interesseiro ranço evangelista do tipo: "só Jesus salva! E detalhe: só se for na minha igreja!"...

Acreditar nisso é sinal de profunda imaturidade! Ninguém pode condicionar a ação da Graça; ela traz a graça de sua ação a seu modo.


19 março 2012

Quem, de fato, é você?


Quem, de fato, é você?
Suas reações fisiológicas, corporais? 
Suas reações psicológicas resultantes da memória?
Seu corpo sujeito às influências ambientais, climáticas, psicológicas?
Suas esperanças frustradas, depressões e alegrias ocasionais?
Suas ansiedades e temores infundados?
Sua nacionalidade, sua tradição parental/social?
Seus desejos? Sua busca de segurança?
Seu medo da morte e o desejo de continuidade?
Seus pensamentos, sentimentos e emoções? Sua limitada consciência?

Quem, de fato, é você?
Seu desejo de ser algo ou alguém importante?
Sua identidade? Suas crenças? 
Sua família, seu tipo de sangue?
Suas dores, suas lutas?
Seus conflitos, suas restrições?
Seus defeitos, suas virtudes?
Seus conhecimentos, seus saberes?
Suas verdades, suas mentiras?
Seus segredos, seus bloqueios?

Quem, de fato, é você?
Seus objetos de apego, suas dependências?
Seu partido, seu time, seu hobby, sua novela?
Seu emprego, sua técnica, sua especialidade, seus dons?
Suas ocupações, seus problemas financeiros?
Sua posição, seu poder, sua autoridade?
Seus fracassos, seus sucessos?
Suas posses e aquilo que ambiciona?
Seus cambiáveis e inconfessáveis padrões de comportamento?
Seus barulhos, seus forçados silêncios?

Quem, de fato, é você?
Suas experiências, suas tendências?
Seus preconceitos, suas impressões, suas projeções?
Seu nome, sua idade, suas identificações?
Sua existência limitada ao espaço-tempo?
Quem, de fato, é você?
É isso à que chama de "eu"?
O que é isso que diz ser você?

Sobre o falso poder político


Como que algo cuja base é um "partido",
pode ser a representação de um inteiro?

17 março 2012

Aos pescadores de homens

"O poder da mensagem, encontra-se
na atração e não na promoção."

É arrogância um convite para a compreensão de si mesmo, por si mesmo? É soberba um convite para descobrir a realidade de si mesmo, por si mesmo? É arrogância um convite para abandonar as muletas, deixar o leito e seguir de forma independente em busca da realidade de si mesmo?... Depende!... Se o convite é só um convite ou se o convite é uma imposição e, muito mais do que isso: depende da energia que move tal ação. Existem vários modos de se dizer um sim ou um não, mas há um só modo pelo qual eles serão recebidos com sucesso: pelo conteúdo de sua energia. Ninguém é tão suscetível à arrogância, à soberba, à vaidade, ao descaso e à ambição alheia, do que aqueles que sofrem da disritmia psicocoronária, por terem sido excessivamente expostos à ambientes e pessoas movidas por esses e muitos outros defeitos de caráter, os quais expressam a ausência de inteligência e amor. Ao longo da história, todos os homens e mulheres que atingiram a excelência de ser, que foram tocados pelo demasiado humano, não deixaram de nos lançar esses mesmos convites. No entanto, dois eram os fatores que faziam com que seus convites fossem assimilados pelos ouvidos e olhos daqueles em que em seu interior se encontrava o ambiente e circunstâncias necessárias: que a experiência dessa Nova Realidade fosse uma experiência viva no cotidiano desses homens, em todas as suas relações e que suas palavras estivessem carregadas de uma só energia — a energia do Amor. Mesmo uma imposição, se vier pela energia do Amor, será acolhida pela mente e coração. Não é com veneno ou com algo artificial que se atrai um peixe, mas sim, com uma isca viva, cheia de energia. Não é com barulho que se atrai um peixe, ao contrário, a atração se dá por meio do silêncio meditativo contemplativo. Um bom pescador, contempla os movimentos do peixe, dedica-lhe o tempo que for necessário, movimenta lentamente a direção de sua isca, atraindo-o para si. Ele não bate sua vara contra as águas em que este peixe vive e busca sua nutrição. Ele não escolhe a isca que ele, o pescador, tem por preferência, mas sim, pelo estudo do tipo de peixe que se encontra naquele ambiente; é através do silencioso estudo que escolherá a isca que poderá proporcionar o êxito de sua pescaria. Se o pescador é dotado das qualidades resultantes da inteligência do Amor, muitas vezes, nem precisará se dar ao trabalho de fazer se quer um movimento para que tal peixe seja fisgado; ele mesmo, em sua necessidade de nutrição, se fará pego através de tal isca. Quando se vai à um pesqueiro, não é difícil perceber a diferença entre aqueles que carregam na alma um genuíno amor pela pesca e aqueles que momentaneamente ambicionam ser vaidosos pescadores... A diferença é gritante e, por vezes, para outros pescadores, tal diferença de comportamento, se faz profundamente irritante, uma vez que não dá para pescar próximo à alguém que pelo excesso de barulho e arrogância de movimentos, vive a espantar os peixes próximos à sua região. Quando um pescador autêntico se depara com situações semelhantes, este, recolhe sua linha e, de forma inteligente, se afasta do amador vaidoso e, em outras margens, novamente dedica-se à sua paixão, com paixão... 

Como nas palavras de um dos poetas do amor à vida:

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria... O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece... Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal... Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta... Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado... Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor."

Em vista disto, que sejamos unidos e amorosos pescadores de homens, cada um pescando do melhor modo, o qual é aquele que se expressa em seu coração. Que saibamos respeitar os diferentes modos de pesca, os diferentes instrumentos usados e as diferentes preferências de iscas de tais peixes. Um autêntico pescador, dotado de alma, sabe que aquilo que realmente importa, não é o método ou o instrumento, mas sim, o peixe. 

Seja lá qual for seu instrumento ou sua isca, boa pesca!

Em amor,

16 março 2012

Relato de uma experiência culminante

Foto: egosistema
Em algum lugar do passado...

A depressão iniciática havia atingido seu ponto culminante, fazendo com que a mente entrasse em total colapso. Não mais dispunha ela da energia pendular necessária para dar continuidade a sua tentativa de solucionar o conflito — por ela mesmo criado — de forma totalmente dual (faço, não faço... largo, não largo...). Já não havia mais energia para sustentar a resistência diante do forte impulso criado pela mente para a concretização da ideia de cometer suicídio. De repente, deu-se a instalação de um estado de total rendição, de total prostração e impotência diante do poderoso fluxo de conflituosos pensamentos. O corpo se encontrava curvado, quase que em posição fetal. Com o sentimento resultante da rendição, deu-se a constatação dos nervos do corpo se soltando, liberando assim, toda a tensão que causava a dispersão de energia vital. Deu-se a percepção de todo fluxo de energia, antes preso no processo de tensão, sendo direcionado de forma abrupta em direção ao centro da mente, ocasionando algo semelhante a uma explosão silenciosa, seguida de de uma impactante fala, surgida na parte posterior da caixa craniana, bem próximo das primeiras vértebras do pescoço. A impactante fala limitou-se à expressão: "Eu Sou O Que Sou". Instantaneamente, todo conflito, toda confusão, toda tensão, todo labirinto de questionamento, dissolveu-se de tal maneira, que só pode ser simbolizada com a palavra "milagrosa". Uma possante carga de energia apoderou-se do corpo, mente e coração, energia essa que tinha seu centro de origem na região superior do cérebro, dando a impressão de que a mesma partia de um local externo do corpo, algo como um palmo acima da cabeça. Essa energia era profundamente calorosa e o corpo parecia envolto por uma brisa benfazeja, algo como uma Presença Invisível, amorosamente acolhedora. Havia o sentimento de estar seguro sobre a ação dessa Presença. Não existia o sentido de tempo e espaço, observador e coisa observada; tudo parecia ser parte de "Algo" único, dotado de cores e formas, cuja intensidade, torna-se impossível a descrição. Era possível a percepção da energia, dos pensamentos e sentimentos que moviam os seres, bem como os ambientes. Uma capacidade de leitura vibratória, instalou-se juntamente com a potencialização da sensibilidade. Uma Realidade nunca antes imaginada tomou conta de todo o ser, na verdade, não havia separação entre o ser e a Realidade. Essa Realidade se expressa num ritmo próprio, dotado de profunda calma e compaixão. Aliás, o próprio ritmo da respiração podia ser sentido como a Pura Compaixão. Não havia qualquer manifestação de ansiedade, medo ou a necessidade de movimento, de ação por parte do corpo.  Era um estado de contemplativa compaixão, o qual trazia consigo, uma percepção imediata, sem espaço para a medição da mente. Nesse estado, não havia passado, nem futuro e, em consequência, nenhum sentido de apego, inclusive no que se refere ao corpo. Havia uma tal clareza de percepção que a mesma chegava a causar dores no ser — mas que não tem nenhuma relação com as dores criadas pelo conteúdo da mente. Enquanto nesse estado, até o entendimento de línguas e símbolos que não faziam parte do conteúdo da mente, eram lidos de imediato, sem esforço, o que para a mente lógica, racional, cartesiana, soa como algo completamente destituído de sentido. Não se tratava de um processo alucinógeno, aliás, apesar da intensidade do processo depressivo, a mente e o corpo não se encontravam sobre a influência de nenhum tipo de droga receitada ou não. Uma intuição premonitória, elevada a níveis indizíveis, apontava a direção e trazia a ação imediata que não era resultante de um processo de ideação, ação imediata esta que causava conflito com outras mentes, que de forma codependente, se alimentavam do antigo estado de ser. Foi no choque com essa mentes controladoras e autocentradas que insistiam dizer que tudo aquilo não passava de um perigoso surto psicótico à ser imediatamente clinicado, que o medo encontrou espaço para a identificação e, por meio dela, deu-se a instalação do processo de "queda do paraíso". Esse estado de bem-estar e bem-aventurança deve ter levado algo próximo a sete dias; não há como precisar. No choque com a antiga realidade, instalou-se novamente um profundo quadro depressivo, no entanto, este já não apresentava mais o anterior impulso para o suicídio, mas sim, um forte impulso para a busca daquele estado de compaixão contemplativa, em cuja totalidade do ser, grafou como que com fogo, a pedra de seus mandamentos. À partir de então, toda relação que não apontasse para a potencialização do Ser e que, ao contrário, forçava ao ajustamento servil, por não servir de ponte, era deixada pelo caminho. Nenhuma verbalização tem o poder de alcançar e registrar o conteúdo do que aconteceu nesse processo iniciático de abertura e limpeza do coração. A tentativa de verbalização pela mente lógica, racional, tem tanta vida e frescor como folhas secas, soltas ao vento outonal. 

Uma educação para o Amor


Qual seria, nesta era de tamanha explosão tecnológica científica, a mais importante e imprescindível descoberta humana? Como nunca antes, o ser humano vem sofrendo (e agravando dia-a-dia) de um doentio estado o qual chamarei aqui de "Disritmia Psicocoronária, um estado em que a mente e coração, não funcionam em harmonioso compasso e direção. A cada século, a raça humana é presenteada com raros homens e mulheres, que pelo seu modo de ser, deixam-nos claro que estavam devidamente imunizados contra esse tal estado de disritmia. No entanto, como nos mostra a história, a raça humana — que funciona sempre nos moldes do passado — não estava preparada para esses homens e mulheres, cuja mente e coração, funcionavam no poderosíssimo ritmo de um agora, futurante; eram mentes muito a frente de seu tempo. Sua tamanha capacidade de visão, aos adormecidos, causava profundo medo e preocupações autocentradas para a grande maioria dos disritmados líderes escravocratas. Sempre foi assim e parece que, por tudo que se vê na mídia, assim, continuará a ser.

Sabemos muito bem os perigos do avanço cientifico tecnológico, quando destituído de alma e coração. O Poder sem coração só gera corrupção, que é muito mais do que esconder dinheiro dentro da cueca. Corrupção, no sentido de desvirtuamento da origem, da essência daquilo que ao ser humano se torna manifesto. Em vista disso, me pergunto: 

"Qual seria a imprescindível descoberta capaz de facultar ao homem a potencialização de sua ainda dormente e embrionária Consciência Amorosa Integralmente Inteligente?"

Sem dúvida, a essência desse questionamento nada tem de novo, visto que, ao longo da história, homens e mulheres, cada um ao seu modo, se debruçaram sobre esta questão, com tamanha seriedade e paixão pelo "Demasiado Humano", pela "Excelência de Ser", ao ponto de muitos chegarem até mesmo ao sacrifício de sua própria existência. Com sua dedicada paixão, apresentaram ao mundo o conteúdo de suas meditações, não somente através de livros e palavras, mas sim, pelo exemplo vivo de sua vida de relação. Posteriormente as suas mortes, "bem intencionados seguidores", acabaram por corromper as percepções desses amorosos e ritmados homens, através da codificação de sistemas de crenças. Tais sistemas de crenças, como se pode ver, no que diz respeito a proliferação de um estado de beatifica consciência ritmada, nem sequer o traço da cedilha, tiveram por êxito.

Nossa cultura — que mais parece servir à um processo de descultura — criou um sistema de educação que força o ser humano ao ajustamento, à irreflexiva padronização, à repetição pelo acumulo de conhecimento, à um modo mecânico de pensar destituído da capacidade de levantar fundamentais questionamentos, um sistema de educação que força a aceitação passiva do modelo operante imposto pelo sistema dominante, modelo este que atrofia o desenvolvimento da lógica e da razão. Em vista disso, o sistema de educação se transformou numa máquina processadora de "embotados mecânicos especialistas", cuja preocupação primordial não está em descobrir e seguir o ritmo sutil de um coração amoroso, mas sim, em ser mais um vitorioso "aprendiz gladiador", no imenso e especulador coliseu do mercado de trabalho, cujo único interesse está no acumulo de cifras monetárias para a consumação de cambiáveis bens materiais. Neste imenso coliseu, em nome dos lucros, toda forma de barbárie tem se mostrado possível, inclusive, com a ajuda de uma mídia também corrompida, a barbárie de disfarçar a percepção da realidade da mecanicidade atuante. Tanto a educação como os meios de comunicação, estão fundamentados no processo de comparação, o qual é sempre medido pelos índices de ibope, os quais sustentam o desenvolvimento de uma mente escrava do medo, consequentemente, forçada à aceitação da imitação que condiciona e à recusa de valores originalmente criativos que apontem para a formação de consciência. O impulso para a satisfação do imediativo sensório, coloca de lado até mesmo uma razoável capacidade de raciocínio lógico, o qual teve seu desenvolvimento tolhido através de vários anos de adestramento escolar.  A essência da filosofia, da poesia e da arte, a qual potencializa o despertar de uma mente e coração sutil e amoroso, capazes de captar os sinais da Inteligência Amorosa Criativa, que tudo permeia e que ilumina a razão, foi substituída por valores científicos à serviço das "exatas financeiras" e das "humanas desumanas". O mantra de nossa educação pode ser resumido numa simples e repetida questão:

"Afinal, quanto eu levo nisso?"

Diante da egocentricidade de tal mantra, surge então a questão:

"Qual descoberta poderia alterar o fluxo da consciência humana, de modo que houvesse o realinhamento com o ritmo amoroso dessa Inteligência Criativa, de modo que a pergunta 'Quanto eu levo nisso?', poderia dar lugar a pergunta: 'Como posso colaborar com isso?'"

Qual educação poderia facilitar ao desumano ser humano a deixar de ver o mundo como um objeto a ser explorado, de forma inconsciente, apenas para a satisfação de seus interesses autocentrados? 

Qual educação poderia facultar ao ser humano o questionamento de como interagir de forma harmônica, consciente, com este organismo vivo, do qual o homem é parte integrante e não como senhor dominante, que é o modo como ele hoje se vê?

Penso que na resposta para estas questões, se encontra o remédio que pode facultar ao homem a cura de sua doença de disritmia psicocoronária, causadora das mais variadas formas de estresse, os quais impedem ao homem a retomada de seu próprio ritmo, sem o qual, torna-se impossível a manifestação de um estado co-criativo com a Fonte da Vida, a qual é toda alegria, felicidade, liberdade, poesia e, principalmente, Arte. É na descoberta da educação correta que se encontra, em nós, o artista e a arte de viver. Sem a descoberta desta educação, o ser humano continuará a ser aquilo que hoje é: um ajustado, conformado, embotado e corrompido telespectador; totalmente incapacitado de experienciar e exercitar, pelos palcos da vida, a genuína realidade expressa na limitação da palavra, "Amor".

Descendo a Serra de Santos

Foto: Arquivos da Net

Do mesmo modo que as janelas de uma casa encoberta pelo mato não tem como receberem a ação da luz solar, do mesmo modo, sem o árduo trabalho de ego-conhecimento, não há como o ser humano receber a luz do Auto-conhecimento. Em outras palavras, para alcançar a praia dos Santos, há que se aventurar na descida da serra de si mesmo. 

15 março 2012

Aviso aos iluminados navegantes

Acho profundamente decadente a postura de certos "realizados e iluminados de plantão" de insistirem através de uma postura repleta de arrogância espiritual e de soberba catequista, criticar a caminhada espiritual daqueles que não se encontram "na altura espiritual" em que eles dizem se encontrar, pela qual se auto-denominam como seres realizados, livres de qualquer dúvida, por serem eles, os portadores da Verdade. Esquecem-se eles, do longo e pedregoso caminho que percorreram, da enorme e não confessada quantidade de livros que leram, das instituições — nacionais e internacionais — pelas quais passaram, dos "mestres" que plagiaram, das dolorosas cabeçadas que deram e da publicidade — escrita, verbal e on-line — que fizeram das palavras destes mestres que aos poucos foram limpando suas embotadas mentes. Se atrevem a chamar de "estúpidos" aqueles que não compactuam do mesmo momento que eles vivenciam e por fazerem aquilo que um dia eles também o fizeram, e não percebem, que ao fazerem isso, estão sendo sectaristas, dogmáticos, profundamente preconceituosos e, não raro, através da grosseria de suas palavras, depondo contra aquilo que acreditam viver. Estupidez, arrogância e soberba, nada tem a ver com amor, felicidade e liberdade. Tamanha estupidez, arrogância e soberba só podem ser resultante de uma mente presa num profundo auto-engano, causado pela imitação barata de um acumulo de conteúdo livresco e institucional.

Creio que alguém realmente "realizado" teria no mínimo, um olhar de compaixão por aqueles que ainda necessitam, como eles em seus passados, fazer uso das muletas psicológicas emprestadas por outros homens e mulheres que tiveram a dignidade de fazer algo para que o irmãozinho que ainda sofre, não ficasse prostrado em alguma sarjeta.

Aqueles que fazem uso de tamanha arrogância espiritual e da soberba catequista, com todo respeito, perdem uma grande oportunidade de se manterem calados e quem sabe, através do silêncio, perceberem o tamanho de seu monstruoso e contagioso auto-engano... Se ao menos se dessem ao trabalho de meditar sobre a soberba verborréia de seus próprios textos e falas, quem sabe, ao invés de se proclamarem como sendo "o caminho, a verdade e a vida" da Nova Era de Aquário, aprenderiam pelo menos, o RESPEITO AO COMPASSO DO PRÓXIMO.

A C O R D E M! Quem sabe, ainda sobre tempo para aprenderem e desfrutarem da beleza de se caminhar lado a lado, livres das pesadas correntes criadas pela autoridade espiritual

Sobre a poderosa ação da energia meditativa

"Só conhecemos o caminho do amor, quando compreendemos todo o processo da idéia"
Jiddu Krishnamurti

...Dedicar tempo, paciência, energia não reativa, para compreender o comportamento do fluxo da mente, dos sentimentos, emoções e sentidos. Ver tudo isto, toda sua ação, com muito zelo e abertura. Sem este tipo de acolhimento, sem esta ação meditativa, não há como se manifestar a sutil, calorosa e amorosa inteligência criativa, a qual é infinitamente superior à inteligência mecânica-tecnológica, que é um subproduto desta Inteligência Amorosa. Podemos olhar o planeta e constatar os resultados de uma inteligência mecânica-tecnológica destituída da ação dessa Sutil e Amorosa Inteligência.

É preciso dedicar tempo, paciência e aquela energia que não impulsiona para a fuga, para o julgamento ou para o ajustamento, para o conformismo, repressão, ou para a imperiosa compulsão para o isolamento; uma energia que traz consigo um olhar não reativo, não compulsivo e que, em si, é a essência do processo de ego-conhecimento, o qual precede a constatação final que revela o auto-conhecimento. O auto-conhecimento surge quando, pelo silenciar do confuso conteúdo da mente, o Coração Sutil se abre, trazendo consigo uma inenarrável energia calorosa e pacificadora. 

É pela abertura à esta energia meditativa que nos são reveladas todas as nossas tendências reprimidas que nos mantém na doença da identificação egóica. Esta doença, pode ser chamada de a "Doença do Ainda"... "Ainda não fizemos isto!"... "Ainda não sentimos aquilo!"... "Ainda, ainda e muitos aindas"... Muitas formas de ajustamento, muitas formas de repressão, "ainda" não subiram à superfície, "ainda" não encontraram uma brecha criada pelo orgulho, pela desatenção e pela exaustante dispersão de energia da tentativa de controle. Do mesmo modo que não se pode barrar por muito tempo o poderoso e volumoso fluxo de um rio, sem que se alivie sua resultante pressão, também ocorre com o conteúdo reprimido — seja consciente ou inconsciente —, este, quando surge à superfície, por não ter sido devidamente esclarecido, torna-se fonte de imensa confusão. Aquilo que não é devidamente acolhido, não tem como ser aceito e, na sua aceitação, luminosamente transcendido.

Sem a poderosa ação da energia meditativa, não reativa, torna-se impossível o despertar da Sutil e Holística Inteligência Amorosa e Criativa, que tudo observa e coloca em seu devido lugar, à serviço de sua própria Criação.    

14 março 2012

Qual é a base do conflito humano?

No vosso coração, na vossa mente, reside a verdade e procurá-la no exterior
é inútil, ainda que seja mais agradável... Deus só pode ser encontrado quando
a mente não mais busca vantagem para si. — Jiddu Krishnamurti

Há uma urgente necessidade de compreender o conflito humano sem a ação de nenhuma influência externa. Para a compreensão do conflito humano se faz necessária profunda seriedade, sem a qual, não é possível fazer frente e superar, por meio do discernimento, as poderosas e estagnantes raízes do medo. 

A fonte do conflito encontra-se no medo de não ter atendidas as inconfessáveis exigências de nosso desejo de segurança psicológica. Para compreender de vez essas várias formas de desejos conflitantes, ou seja, compreender a própria entidade desejante, a qual está sempre em busca de algo que impeça, que desfoque a ação do discernimento quanto a sua irrealidade. 

A falta da compreensão da natureza dessa entidade desejante é que mantém a própria entidade — o eu, o ego — com seu modo de existir profundamente limitado pelas mais variadas formas de dependências psicológicas com suas exigências claudicantes. Sem a devida compreensão dessa entidade desejante, toda forma de busca, toda forma de ação — que na realidade é reação — tudo isso só pode levar à instalação de mais conflitos aos já há tempos instalados. É como uma fórmula matemática que explica a natureza de qualquer ciclo compulsivo:

CONFLITO + DESEJO DE ALIVIO IMEDIATO = CONFLITO²

Sem a investigação da entidade desejante, nunca pode haver a percepção direta daquilo que cria e move a busca por desejos cambiantes. Todo desejo é precedido de uma idéia, de um pensamento; é uma forma de reação inconsciente à alguma influência externa aos sentidos, os quais sempre estão em busca de segurança. Não há nada de errado com os sentidos; eles nos foram dados pela vida. O problema é quando estes estão sobre os domínios do ego, cumprindo portanto, suas funções de forma deturpada. A própria identificação ilusória de que a nossa natureza real são os nossos sentidos, já é uma das manifestações de nossa natureza irreal: o eu, o ego, uma vez que, nós não somos os nossos sentidos, mas sim, a Consciência que se faz consciente da ação dos sentidos. 

Quando não há a investigação dessa entidade desejante, em razão da inconsciência da mesma, é passível a ocorrência de toda forma de identificação doentia, as quais acabam sendo fontes criadoras de mais e mais conflito. Por sua vez, estes conflitos acabam dando lugar a mais e mais idéias e pensamentos que apontam para novos desejos e buscas que prometam solucionar os conflitos — ou pelo menos, amenizá-los. Assim, sem a percepção, sem o discernimento dessa entidade desejante, o ser humano permanece prisioneiro desse imenso labirinto de conflitos e desejos. 

Só na compreensão da entidade desejante é que pode deixar de existir toda manifestação de desejo — o qual é sempre um movimento na irrealidade da ponte to tempo psicológico. É esse movimento cíclico na ilusória ponte do tempo — passado-futuro — o qual nos impede a completa vivência do agora, que mantém a entidade desejante num constante estado de desejo, euforia, seguidos de insatisfação depressiva. Sem essa investigação, não há como se manifestar a percepção de que todo desejo está sempre limitado a idéia, ao background da entidade desejante, background este que sempre cria a insatisfação diante da realidade que se apresente. É esse background que cria a dualidade entre "gosto e não gosto", "aceito e não aceito", "quero e não quero"; a dualidade sempre cria o resíduo da experiência a ser acumulada na memória, resíduo este que intensifica ainda mais o background dessa entidade desejante. Quanto maior o background, mais distante a percepção e a aceitação da realidade. Quanto maior o background, mais o passado — com suas idéias e medidas — interfere na direta visão da realidade. 

A libertação de toda manifestação de conflito só pode ocorrer quando existe a compreensão total dos movimentos, dos impulsos, das sugestões, das imperiosas exigências da entidade desejante, com a qual o ser humano se identifica como sendo seu "Eu Real", como sendo sua Real Natureza. Só na compreensão direta da irrealidade dessa entidade desejante é que pode se revelar "Algo" imensamente superior aos limitados conhecimentos da realidade física e, através dessa revelação — que só pode ocorrer quando não há mais a escolha pelo desejo de fuga — é que a irrealidade da entidade desejante pode ser "dissolvida" de vez. E, essa sagrada compreensão, só pode ocorrer quando há espaço e a energia da tranquilidade do silêncio meditativo. 

13 março 2012

A dieta do suco de limão

Foto: arquivos da internet

Pela manhã, gosto de caminhar até uma das padarias do bairro, onde tomo um bom café, seguido de uma garrafa de água bem gelada, enquanto desfruto da leitura de algum livro aleatoriamente escolhido para o dia. Levo comigo um pequeno caderno onde costumo anotar os pequenos insights que se apresentam durante a meditação livresca. Essa é uma oportunidade que tenho de fazer um balanço entre o modo operante que me é apresentado através das futilidades das eufóricas conversas de balcão e o poderoso e transformador silêncio emanado da essência das palavras contidas nas entrelinhas dos livros destes homens e mulheres que sempre estiveram a remar contra a maré da milenar mediocridade coletiva.

Num determinado momento da leitura, aproximou-se um obeso rapaz, que há alguns dias vem bebendo uma grande quantidades de limões, que, segundo ele, fazem parte de um tratamento que retirou de um livro para fazer uma "limpeza interior". Nosso contato nunca passou daquele social "tudo bem?", mas, naquele dia pude perceber sua curiosidade com relação ao meu modo de ser, às minhas leituras matinais e também quanto às anotações. Para minha surpresa, meio vacilante, acabou saindo de seu canto do balcão, vindo em direção à mesa e perguntando:

— Você está escrevendo um livro?

— Mais ou menos isso... — respondi deixando um hiato de silêncio no ar o qual deu origem àquele olhar de "quero mais" em relação a resposta. Ele continuou ali à espera de uma resposta mais conclusiva. Ao perceber seu interesse, respondi:

— Estou me reescrevendo, página por página, na esperança de num dia destes, quem sabe, possa ser tocado por meu autor.

Pelo sorriso, tive a impressão de que ele não compreendeu o espírito da fala. Fez então um breve aceno, voltou-se para o balcão em direção ao suco de limão, o qual bebeu num só gole, fazendo com certeza, um enorme esforço para disfarçar dos presentes, a acentuada acidez que tomava sua garganta e estômago.

Alimentar em nós aquilo que não faz parte de nossa real natureza é uma manifestação de vaidade e, portanto, um produto do domínio do ego. Quando estamos sobre a poderosa influência do ego, toda forma de auto-agressão, seja física ou emocional, por falta de inteligência,  é possível de ocorrência. A preocupação com a manutenção da imagem da criada identidade pessoal, impede a revelação da natural e impessoal alteridade. Quando se é prisioneiro dos domínios do ego, facilmente se é sugestionável às influências do ego social.

Uma existência dominada pelo ego é uma existência sem propriedade, sem originalidade, sem autenticidade e, portanto, só pode produzir imitação, ainda que levemente modificada pelo temperamento, tendências e índole pessoal. Como uma existência dominada pelo ego tem sempre seu olhar voltado para o exterior, não há como se conhecer nada que seja original, nada que venha da fonte da vida, fonte esta que só pode ser percebida, sentida, quando desligados de toda forma de influência externa que não seja uma original expressão da vida. Quando, em meditação, nos voltamos para nossa realidade interior, descobrimos a presença de uma Mente e Coração Sútil, através dos quais, a originalidade do não manifesto, pode ser fazer manifesta.

nj.ro@hotmail.com

12 março 2012

Cego guiando cego


Trigueirinho, em seu áudio intitulado "A experiência do deserto" (áudio este disponível e transcrito neste blog), nos alerta quanto ao perigo de querermos influenciar pessoas, no que diz respeito ao compartilhamento da experiência da Verdade, da experiência direta do "Eu Sou", antes de termos  "dissolvido" aquilo que pensamos ser, na chama do discernimento que ocorre em meio ao imenso deserto do Real. São suas as seguintes palavras:

"...Nós temos muita pressa de nos manifestar, temos muita pressa de nos dar a conhecer, de inspirar os outros, de mandar nos outros mas, isto tudo não acaba bem, quando a gente ainda não atravessou o deserto... Enquanto nós não passamos por esta prova, tudo que nós passamos para os outros não é verdadeiro, não é comprovado em nós e o outro não sente segurança naquilo que a gente está passando, porque a gente ainda não atravessou o deserto. Então, nenhum de nós pode garantir se realmente é fiel e nenhum de nós pode garantir se é realmente perseverante, se é verdadeiro aquilo que diz ser. E o outro percebe isto! E não tem um referencial real, não recebe uma força que ele precisa, que ele necessita. E é bom que nós tenhamos isto claro para não decepcionarmos o outro neste ponto da fé e da perseverança, num momento em que o outro está numa situação critica, difícil para ele, e numa situação na qual nós já passamos. E sabemos que nestas situações de transição é bom que a gente não seja desestimulado, é bom que nossa parte melhor seja reforçada. Isto que constrói esta base sólida, isto que nos ajuda a atravessar este deserto e a darmos ao outro uma força e ajudarmo um outro em tudo aquilo que ele precisa, isto tudo é baseado na gratidão".

Nesta caminhada em meio ao deserto, há uma poderosa e quase que incontrolável manifestação do ego em querer transformar o resultado de um "vislumbre do Ser" em algo como a "Totalidade do Ser". Esta precoce e indevida tendência de querer impressionar os outros é muito fácil de ser alimentada por parte daqueles que nem se quer se abeiraram de um tal vislumbre e que, portanto, ainda sofrem das angústias provenientes de uma vida regida pelo total domínio do ego. Já me referi a isto em mais de um de meus textos: "Em terra de cego, quem tem um olho vira palestrante, ou escritor de auto-ajuda".

Não há problema nenhum nisso, desde que o homem não se afirme como a materialização final da Verdade; aliás, cada um desses escritores cumprem uma determinada função, algo parecido como uma placa indicativa em determinado caminho. O problema, a meu ver, está em querer se afirmar como sendo o próprio caminho. Isso é mais comum do que se pode pensar; a história está cheia de homens e mulheres que deixaram alertas quanto a essa poderosa armadilha do ego: o orgulho da erudição e da organizada liderança sacerdotal — os quais mantem o iludido ser humano numa espécie de patologia que poderia ser nomeada de "Iluminose" ou de "Gurusite crônica". 

Outra palavra poderosa que nos alerta para este perigo em meio ao deserto, vem de Ramana Maharshi:

"... É como o homem submergido na água para trazer algo do fundo dela. O mergulhador não pode falar. Depois de haver encontrado o objeto que buscava, volta à tona e fala... Estando dentro da água, a água entraria-lhe na boca se ele a abrisse para falar... Felizmente há homens que não se deixaram envolver nesse labirinto. De verdade era eu bastante afortunado por não me ter aproximado sequer. Pois, se me tivesse deixado levar, provavelmente, estaria em parte alguma, sempre em confusão"

Esse tipo de auto-engano, causado pelos poderosos resquícios do ego é que novamente acabam potencializando a sua estruturação. Se antes tal ser humano se encontrava enredado na trama do horizontal egoísmo materialista, aqui, acaba se enredando na verticalidade de um ego falsamente espiritualizado. Mesmo em busca do "Divino Peixe", mesmo se aventurando ao mergulho no escuro lago da inconsciência humana, por causa de seu auto-engano causado pela retroalimentação da identificação egocêntrica, o homem acaba por espantar o que poderia saciar de vez sua fome de plenitude. Em seu corajoso mergulho, este homem, tendo um vislumbre das reluzentes cores do "Sagrado Peixe", retorna a superfície, estasiado por tal visão, querendo se fazer acreditar — tanto para si mesmo como para com os outros — ter se "apropriado e devidamente alimentado" de tal  divino alimento. Como é preciso muita coragem para afirmar este auto-engano diante dos olhos e ouvidos dos menos precavidos, não é nada difícil ser "endeusado" por aqueles que ainda não possuem a necessária energia para se aventurar em tal mergulho. Como, todo aquele que vive de forma inconsciente nas margens do mar da vida, vive através de imagens, não é de se admirar que o mesmo possa se permitir a ilusória ação desse encantamento que se dá por meio de imagens, palavras  e sons, os quais soam totalmente diferentes do script que lhe é conhecido. O problema é que, nesse encantamento, o seguidor acaba com o seguido, assim como o seguido acaba com o seguidor. 

Portanto, é preciso estar atento à essa perigosa tendência do ego humano, a qual já foi relatada de forma metafórica em tantas histórias, entre elas, "um cego guiando outro cego", ou "o lobo na pele de ovelha". A maior vitória do ego humano é conseguir hastear sua bandeira nas na recente manifestação da Mente e Coração Sutil do homem. É com esta vitória que o ego sustenta a imensa pedra do orgulho que mantém o SER na sepultura, impedindo de vez sua ressurreição e o nascimento de um novo homem dotado de amor eterno. 

Onde o ego vê lucro, o SER alerta para o prejuízo. Quem têm olhos de ver que veja!

11 março 2012

Quarta-feira de cinzas

Arte: Sinfronio
Como pode o ser humano ver algo profundamente real, profundamente verdadeiro, se insiste e persiste na insana atitude de ver a vida através das escuras e espessas lentes de seus condicionamentos e tendências? Como pode ele ver a beleza natural da vida, com agilidade, leveza e em seu ritmo natural se insiste em se arrastar pelas passarelas da vida, — escondendo de si e de todos —, por detrás de suas pesadas e descartáveis máscaras, fantasias e posses alegóricas a sua real natureza? Enquanto não acontece a aurora da quarta-feira de cinzas de seu eufórico carnavalesco ego, enquanto não chega seu meio-dia — esse precioso e rápido momento em que não existe ação da sombra — não há como ter início a retomada da Realidade do Ser, retomada esta que liberta o ser humano da disritmia do milenar samba enredo do "carna vale", que é a representação máxima do vale de sombras de uma existência ritmada pelos cacoetes da ilusória identificação na expressão corpo-mente. Enquanto ele não vive a luz da quarta-feira de cinzas de seu ilusório ego, não tem como sua vida ser algo diferente do que  o desgastante, eufórico e cotidiano samba de suor, lágrimas e confusão que nada tem da autêntica felicidade, liberdade e realidade. 

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!