Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

17 janeiro 2008

Atravessando a Augusta em tempos de travessia

Depois de sair do sebo Arsenal do Livro, localizado a três quadras da Av. Paulista, decidi descer a Rua Augusta para conhecer algumas lojas que me chamaram atenção na última vez que aqui estive ainda na semana passada. Estava bastante feliz por ter conseguido um exemplar de um livro esgotado e que há alguns anos estava a sua procura. O livro, de um autor brasileiro, Roberto Ziemer, intitulado "Do Medo à Confiança", que vem bem de encontro às emoções e sentimentos que no momento vivencio. Quase não pude acreditar no valor pago pelo mesmo – R$5,00 – tanto pelo valor de seu conteúdo, como pelas condições do livro: parecia ter acabado de sair da editora. Meu sentimento ao vê-lo, foi como se o universo tivesse especialmente guardado aquele exemplar para mim. Não havia riscos, folhas soltas ou orelhas nas suas pontas, dedicatórias, apontamentos ou mesmo as laterais amareladas.

Sorridente, desci a Rua Augusta observando as pessoas, os comércios, os aglomerados nos pontos de ônibus e a enorme quantidade de prédios da região. Mais abaixo, conheci um excelente sebo, contendo uma enormidade de discos de vinil, dvd´s e cd´s usados, de deixar com água na boca e fungos nas narinas a qualquer colecionador. Um pouco mais à frente, do outro lado da rua, parei diante de um prédio onde mora um antigo conhecido com quem, pelo computador, troquei muitas "letrinhas" referentes aos nossos torturantes sentimentos em comum relativos aos momentos de tédio e insatisfação que atravessávamos em períodos anteriores. Por iniciativa minha, deixamos de nos comunicar após um contratempo de idéias e sentimentos. Na época, lembro-me que estava juntamente com alguns amigos, estudando a possibilidade de viabilizarmos a formação de um grupo de ajuda mutua, baseado no modelo dos grupos anônimos somado ao profundo conteúdo das mensagens deixadas por Jiddu Krishnamurti – autor que me foi apresentado por este meu antigo conhecido e pelo qual sou imensamente agradecido. Tal grupo teria como objetivo primordial o encontro entre pessoas que se tornaram conscientes do "pensamento" como a natureza exata de seus conflitos e dificuldades na vida de relação.

Naquela época, Motta relatava em nossos contatos virtuais, que um dos seus maiores conflitos estava no fato de não encontrar em seu cotidiano, pessoas com as quais pudesse "pensar alto", ser ele mesmo, sem a necessidade de recorrer ao uso das tão pesadas e desgastadas máscaras sociais, as quais se via forçado a fazer uso numa tentativa de sobrevivência. Quase sempre, ressentia-se com a trivialidade dos assuntos mantidos com a maioria das pessoas de seu convívio, assim como por não demonstrarem real interesse em conhecer sua pessoa a quem recorriam somente nos momentos em que alguns dos seus instrumentos de informática apresentassem algum problema. Não raro, deixava transparecer a todos o seu mal humor e descontentamento diante de sua profissão, escolhida numa época tumultuada e imatura de sua vida. Não tinha vergonha alguma de dizer que se mantinha em tal serviço somente pelo fato deste lhe proporcionar um excelente salário – com o qual podia se dar ao luxo de pagar os dolorosos valores das consultas de seu psiquiatra particular, bem como a conta de seus ansiolíticos e antidepressivos passados por ele. Motta chegou a tais níveis de tédio e insatisfação, a ponto de afetar de vez seu relacionamento de quase 15 anos com Lica. Agora, vivia só, num caríssimo kit net alugado, localizado no inicio da Rua Augusta, próxima ao centro velho. Quando me deparei diante da portaria de seu prédio, o sentimento de saudade bateu forte, juntamente com a expectativa por saber como andava a sua vida. Vez por outra, acabo recebendo noticias suas, por parte de alguns poucos amigos que mantemos em comum.

Lembro-me bem que na ocasião de nossa discussão, sua postura foi totalmente contrária e bastante critica quanto à formação de tal grupo antes mencionado, alegando preconceituosamente que, a seu ver, o mesmo não passaria de um modo a mais para se anestesiar dos conflitos da vida em sociedade. Sua postura não foi diferente daquelas que já lhe eram habituais: um olhar critico, preconceituoso, sem ao menos se permitir o movimento – comportamento este que fazia com que as pessoas, por vezes, o achassem uma pessoa maçante e chata. Diante de sua postura e cansado de ouvir suas persistentes criticas distanciadas de um movimento pessoal por respostas, num ímpeto de raiva, disse-lhe aquilo que algumas vezes senti o desejo de lhe dizer, mas que acabei mantendo preso dentro de minha garganta. Desta vez, sem me preocupar com a sua reação, em letras maiúsculas lhe escrevi:

- Motta, quer saber?... Para mim já chega! Seu nível de chatice tornou-se insuportável. Não dá mais para agüentar seu pessimismo. Uma vez que você continua insistindo nessa postura de preconceituar a tudo e a todos sem ao menos se permitir o movimento, creio que não faz mais sentido continuar mantendo nosso contato. Cuide bem da sua vida!...

Imediatamente a postagem da mensagem, tratei de fechar a tela e tão logo excluí-lo da minha lista de contatos, ação esta que em nada me foi agradável. Mesmo assim, sentia que precisava seguir o meu caminho, vivendo bem e deixando Motta viver conforme sua escolha. Desde então, nunca mais mantivemos contato.

Depois de olhar para o alto do prédio, baixei minha cabeça e sai pensativo com o olhar voltado para os detalhes da calçada e com o coração saudoso, na expectativa de que ele estivesse vivendo bons momentos. Ao chegar à esquina, para minha surpresa, do outro lado da rua, igualmente aguardando pela abertura do semáforo, Motta, visivelmente mais magro em seu alinhado traje social...

- Olá, JR!

- Olá, Motta! Que surpresa vê-lo nesta hora, se tivesse marcado talvez não tivesse dado certo.

- Pois é! E aí? Como estão as coisas? E a Deca?

- Caminhando, longe da correria!

- Você está com pressa? Poderíamos tomar um café?

- Lógico, por que não?

- Vamos aqui embaixo mesmo, logo ali há uma pequena padaria. Então, diga-me, como vai sua família?

- Todos bem!

- E a "Lica"?

- Caminhando bem com sua solidão e os constantes desafios da vida. Tem me surpreendido na maneira como tem conseguido se defender de situações invasivas. Olhando para vocês dois, sinto que, apesar de dolorida, a separação parece ter feito muito bem para ambos. Com certeza, o homem que estou vendo a minha frente, nem de longe se parece com o rabugento e acomodado Motta! Mas, e você? Fora estar se dedicando aos esportes o que tem feito de bom? Continua trabalhando com informática?

- Fora os esportes, continua tudo na mesma... Fazer o que? A vida continua com seus altos preços e sem querer saber se você atravessa ou não por períodos de tédio, insatisfação e questionamentos. Agora é que a coisa piorou, afinal de contas, não tenho ninguém para dividir as contas. Sozinho, fica tudo mais difícil. Vontade de algo novo você sabe bem que eu tenho, mas, fazer o que se nada de novo aparece? Não vejo outro jeito a não ser continuar empurrando a situação aos trancos e barrancos... E você?

- Bem eu... Sabe, Motta, já não posso dizer o mesmo. Cheguei ao meu limite, no meu ponto de saturação. Embora um tanto inseguro de abrir mão do conhecido, ainda que debilitante, estou tracejando meus planos e projetos em direção ao desconhecido. Não quero me enquadrar numa profissão qualquer: quero criar a minha. Não quero me adequar a um local de trabalho: quero criar os meus. Não quero ser prisioneiro de um horário de trabalho estipulado por terceiros: quero criar meu próprio horário. Pretendo colocar em marcha a abertura de uma editora, bem como o lançamento dos meus livros. Pretendo também criar algo muito semelhante ao que conheci na UNIPAZ, com a diferença que serão quatro encontros durante o ano, sendo de três em três meses: workshops voltados para a área de educação e desenvolvimento consciencial.

- Motta, quer queira, quer não queira, para viver nessa área, creio que você terá que se adaptar aos interesses do mercado empresarial.

- Nem de longe! Quero trabalhar pela qualidade do ser e não para alimentar uma das atuais maneiras pelo qual o ser vem sendo ainda mais explorado. Tenho visto que na grande maioria dos casos, essa pseuda -preocupação com o bem estar dos recursos humanos, tem como preocupação velada somente o bem estar dos recursos da instituição.

- Quanto a isso, JR, ainda não vejo como mudar o meu quadro atual.

- Apesar do medo, sinto que chegou a hora. Não tenho nenhuma garantia a não ser a garantia da continuidade dos velhos e torturantes sentimentos se eu me acovardar e não me aventurar no aberto. Como já disse, tenho sentido medo neste momento de travessia, mas, estou de olhos bem atentos para as suas mensagens de auto-boicote. Tenho procurado optar pela confiança de que a vida tem algo de especial para me apresentar. Não creio que ela tenha me chamado para me manter numa existência de automatismo, estagnação e superficialidade. Tenho tido mais provas do que necessito de que aquilo que preciso para manter a minha já simplificada maneira de viver será provida. Sabe Motta, me sinto trilhando um caminho onde todas as pontes são queimadas logo que eu chego na sua outra extremidade.

- Entendo. Mas, e o convívio social? Como é que anda?

- Muito bem, aliás, nunca tão bem como hoje. Meu ciclo de amigos hoje é bem restrito, no entanto, são sinceros. Existe uma verdadeira intimidade e uma real e saudável preocupação com o bem-estar comum que nada tem a ver com codependência ou com as trivialidades costumeiras.

- Você não acha perigoso esse tipo de relação?... Para mim, acho essa postura muito cômoda. Acho que o lance é se relacionar com os mais variados tipos de pessoas. Tenho procurado por isso e sinto que tem me feito muito bem.

- Fico feliz por você, Motta. No entanto, já não é o meu caso. Vivo isso todos os dias em meu local de trabalho. Já no meu horário de laser, faço questão de estar com pessoas que comunguem de sentimentos e buscas semelhantes, pessoas com quem eu não precise ficar medindo palavras ou então, me relacionando até a página dois. E, não sinto que isso seja uma espécie de escapismo da vida de relação... Minha experiência tem demonstrado que a grande maioria das pessoas não estão abertas, ainda se encontram prisioneiras do processo de formação de imagens condicionantes... Por mais que se tente, a relação com as pessoas que se encontram nesse estado de consciência é quase que impossível. A meu ver, é o mesmo que um palmeirense, aberto para uma nova maneira de se relacionar dentro de um estádio, usando a camisa do seu time de coração, querer se sentar bem no centro da torcida Gaviões da Fiel... Compreende o que eu digo? Infelizmente, me parece que são poucos os que se encontram preparados para um "verdadeiro encontro" com outro ser humano.

Após o dito, a força do silêncio quebrou a trivialidade de nossas perguntas e nos direcionou ao que realmente era preciso ser dito. Motta, depois de respirar fundo exclamou:

- Tivemos um contratempo lá atrás... Como ficou isso para você?

- Quer realmente saber?

- Sim!

- Motta, para mim o ocorrido foi extremamente importante e realmente proveitoso. Confesso que a principio senti muita raiva, mas, essa experiência me fez questionar aquilo que minha esposa Deca chama de "amizades de pronto-socorro"... Pude observar com clareza o que movia a nossa relação. Fora o fato de você ter se relacionado com a "Lica" e nas suas horas de tédio e insatisfação pelo computador ou pelo telefone recorrer a minha pessoa, não me lembro de ter visto de sua parte qualquer movimento que demonstrasse real interesse pelo cultivo de nossa amizade. Hoje, mais do que nunca, sinto que a vida de relação é como uma estrada de mão dupla.

- Desculpe-me, mas acho que as coisas não foram bem assim, JR.

- Sinto muito, pois, realmente da minha parte, sempre demonstrei interesse por uma possível amizade. Não me lembro de você ter passado em casa me convidando para cerveja, apenas os dois. Sempre tinha que ter alguns dos seus amigos, ou então, algum dos meus familiares. Falo isso sem o menor resquício de ressentimento, é apenas uma constatação. Você tem os seus amigos que lhe são caros, assim como eu os meus. Ambos lidamos com os nossos sentimentos e as surras do pensamento de forma bastante diferentes. Sendo assim, acho que seja mais do que natural cada um seguir o fluxo que a vida lhe apresenta. Gosto muito de você e torço pelo seu bem. Motta, espero que você consiga encontrar aquilo que esteja buscando. Siga seu coração e não deixe sua mente embaralhar os seus passos. Como dizia Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos"... Garçom, veja nossa conta, por favor.

- Deixe que eu pago essa, JR.

- De modo algum, esse é por minha conta.

Depois de receber meu troco, nos olhamos por alguns segundos. Dei-lhe um forte abraço, transmitindo-lhe meu sincero desejo de forças, saúde e sucesso, o qual ele me retribuiu com a frase:

- Mantenha-se vivo!

Despedimos-nos, seguindo cada um o seu caminho, sem se quer olhar para traz. Dentro de mim, gritava a forte certeza de que esse tinha sido um encontro organizado pela Grande Vida. Sentia que mais uma amarra de situações mal resolvidas havia se soltado de dentro de mim. Podia seguir meu caminho em direção ao Aberto, de coração aberto e com leveza, agradecido por tudo que havia aprendido até então, com meu estimado amigo Motta. Com certeza, ele para mim foi como um barqueiro, que me apresentou uma "canoa prá lá de especial" com a qual atravessei para o outro lado de um dos rios da minha existência. Quem sabe um dia, possamos nos encontrar novamente e responder de forma afirmativa, estar em paz por termos encontrado nosso lugar ao sol.


UM VÍDEO SOBRE A CONSCIÊNCIA

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!