Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

22 dezembro 2011

Auto-conhecimento ou Ego-conhecimento? - Parte 1

Auto-realização
O ego vive projetando situações de sofrimento, caos, constrangimento, ou então, situações de vanglória e reconhecimento pessoal. Baseia-se sempre no conteúdo das experiências passadas contidas na memória. Essas projeções quando não percebidas de modo instantâneo, produzem ondas de ansiedade, medo, pulsões, todas com suas respectivas somatizações físicas, entre elas, algumas como a letargia, a falta de apetite, o desânimo, a insônia ou a fuga pelo sono. 

Quando o ego se agita através de qualquer influência externa, é quase que impossível a prática da meditação contemplativa daquilo que ocorre em nosso interior. Nesses momentos de profunda agitação interna, o ego clama por alívio imediato que, em via de regra, tem uma forte tendência de vir a se tornar uma forma a mais de dependência, na longa lista do ego.

O ego, sempre movido pelo medo, impede a discussão aberta dos sentimentos, da qualidade daquilo que ocorre em nosso interior. Ele cria o medo do abandono, o medo da rejeição, o medo da retaliação, sempre através das projeções mentais. Com isso, o ego se fecha numa espiral de desgastante sofrimento. 

O Ego cria o medo da incompreensão e projeta situações de ostracismo. O medo de ser exposto, sugere pela morte ao invés da auto-exposição. Finge buscar por ajuda, quando na realidade, o que quer é manutenção de suas vontades. Ele morre de medo de ser exposto, de ser ajuizado de forma negativa por outros egos, no entanto, ele julga a tudo e a todos com requintes de sutileza e crueldade. No entanto, é totalmente contrário a qualquer tipo de critica em sua direção, o que quase sempre se torna motivo de indignação, ressentimento, profundo rancor e sentimento de vingança.

O ego se sente o centro de tudo, a base de tudo, o responsável por tudo. Ele vive da mentira, das máscaras, das posturas, dos padrões comportamentais estabelecidos pelo ego social. Está sempre em busca de conveniências, privilégios, as quais impedem o livre comungar, o livre compartilhar; ao contrário, vive da exploração, do consumo inconsequente e do descarte leviano. Morre de medo do isolamento, mas não titubeia um segundo sequer para levar o outro a situações de isolamento. Vive de representações embasadas na hipocrisia do idealismo do ego social. 

Quando acometido por seus fortes ataques, nos vemos dominados, incapacitados de responder de forma contrária às suas insanas exigências, as quais, o ego sempre faz a si mesmo e também aos demais. Quando cedemos a essas insanas exigências feitas pelo ego, mais o alimentamos com o resultante conflito gerado pela raiva, o medo, a culpa e a vergonha. Ele vive em busca de inimigos externos, busca essa que serve de alimentação para sua continuidade, através da exposição do outro e não de si mesmo. Se alimenta também de negociatas e do fluxo constante de pensamentos desconexos. 

O ego é controle, posse, manipulação, desconfiança e retalhação. Ele impede  o desfrute do agora, do presente momento, em toda sua plenitude, através desse constante fluxo de pensamento desconexos que se apresentam na ponte do tempo psicológico passado/futuro. Sua movimentação rápida na linha do tempo psicológico é um de seus principais mecanismos de defesa contra o processo de observação, pelo qual, as automáticas e inconscientes respostas reativas, fonte de incontáveis novos conflitos que retroalimentam o ego, podem ser detidas. Nesse processo de retroalimentação, não se dá a possibilidade curativa da percepção daquilo que realmente somos quando identificados com o ego, seja pessoal ou coletivo. Com suas projeções alicerçadas nas lembranças do que viu, ouviu ou viveu, o ego gera identificações que nos paralisam sobre a ação do medo. O grande fato de inconsciência é que combatemos o medo e não a natureza real do medo: o ego. Isso faz com que fiquemos numa situação parecida com o constante movimento de secar o chão, ao invés de procurar pela fonte de escoamento da água e, pelo conhecimento dela, estancar seu vazamento. 

O ego tem profundo terror ao vazio e, por causa disso, nos empurra nas mais variadas formas de compulsão, sejam socialmente aceitas ou não. Busca sempre alivio em situações externas e possui um forte poder para a dispersão que impede o olhar interno. Ele é como um cachorro, em círculos, correndo atrás do próprio rabo. Nesse andar em círculos, desestabiliza todos os instintos naturais. Entre suas incontáveis manifestações, destacam-se a frieza, a covardia, o interesse, a ganância, a cobiça, a vingança, o preconceito, a desconfiança, o rancor e a maledicência. Quando somos tomados por ele, nos vemos numa reação em cadeia, as cegas. Ao final, quando temos lampejos de consciência, ele entra pela porta dos fundos nos jogando na culpa ou no brejo da autopiedade.  

Existem correntes espiritualistas que prometem pela libertação de toda forma de conflito causado pelo ego, através somente de um movimento de quietude que promete pelo conhecimento de uma natureza, que seria nossa real natureza destituída da ação do ego. Elas afirmam que, uma vez mantido contato com essa Natureza Real, toda identificação ilusória com o eu, cessa de imediato, sem a necessidade de um longo processo de análise. Em meu atual estado de "ego textualmente esclarecido", fico me questionando quanto a realidade e praticidade diante de tal postura, se a mesma não seria tão somente uma forma de escapismo do constante estado de tensão em que a grande maioria se encontra de forma semi-consciente. Segundo essas linhas espiritualistas, o simples contato com alguém, por algumas horas, que tenha conseguido a façanha do equilíbrio interno através da libertação da tensão, do medo, do ego, poderia nos proporcionar esse mesmo "estado de graça", livre da desgraça que é uma vida gerenciada pelos domínios do ego. O simples contato silencioso, levaria a uma libertação do ego, sem a necessidade do ego-conhecimento, partindo direto para o "auto-conhecimento", que seria o conhecimento da natureza real que somos sem a presença do ego. Seria isto realidade ou mero idealismo? Já não fizemos isso com padres, pastores, psicólogos e psiquiatras, todos prometendo pela libertação, pela salvação dessa desgraçada forma de viver identificado com o ego? O que conseguimos com isso? 

Voltando a questão do ego, este vive no tempo, vive no reino do imaginário, hora na recordação, hora na projeção, as quais se apresentam de forma totalmente livre de nossa vontade e controle e, devido ao nosso viciado estado de desatenção, quase sempre alimentamos esse movimento no tempo, essa irreal viagem mental. Parece-me ser um fato a nossa impotência diante o constante e acelerado movimento reativo do ego. Tudo para ele serve de impulso, de alimento para a ativação de seu pacote de memórias que, por sua vez, impulsionam a busca de um prazer imediato que aplaque o constante estado de vazio, insatisfação, descontentamento, solidão e falta de sentido. O problema é que essa constante busca por preenchimento ocasionado pelo ego, é um verdadeiro saco sem fundo, o qual não é capaz de nos brindar com um estado de real leveza, liberdade, felicidade e amorosidade. O ego corporifica-se, alimenta-se e aprisiona pelas formas, formas essas que tem gerado nos últimos tempos, de forma absurdamente acelerada uma monstruosa rede industrial a serviço do ego.

A grande dificuldade me parece ser o fato de que, devida a nossa excessiva exposição de anos e mais anos a essa ilusória identificação de nós mesmos como sendo esse ego, tendo em vista que estamos rodeados desde a mais tenra idade, de outros que também compactuam da mesma ilusão, nos tornamos viciados nessa identificação, a qual é sistematicamente influenciada e alimentada pela poderosa rede do ego coletivo. Em outras palavras, somos adulterados adultos adulterantes. Ouso dizer que, quando não agimos 100% pelo ego, agimos na limitada esfera da razão, da lógica e da moral, que por sua vez, sofrem influência do ego social local. Sei que isso que acabei de afirmar, soa estranho totalmente estranho ao ego, a lógica, a razão e a moral que desconhecem fora de seus limites, qualquer dimensão ilimitada. 

A meu ver, nenhum tipo de relacionamento pode ser verdadeiro quando o ego, nele se encontra instalado. É preciso observar com muitíssima atenção, atenção esta, sem escolha, de forma incondicionada, a esse constante e astuto movimento de desfoque que ocorre na ponte do tempo psicológico passado/futuro, o qual nos mantém prisioneiros nos dolorosos domínios do ego, o qual não tolera o silêncio e a inação. O ego clama por reação, por atitudes que tem por base o conhecido, o convencionado e, nessa linha de conveniência, encontra-se seu maior combustível, que é o medo com toda sua carga sintomática. No entanto, questiono: sem o silêncio, sem a observação em momentos de inação, sem o conhecimento do falso, como conseguir um estado livre do conflito resultante de nossas ações, escolhas, impulsionadas pela constante reação do ego? Sem o ruir dessa estrutura egóica, como algo novo pode se manifestar? Sem a morte para essa falsa estrutura psicológica causadora de conflitos, a qual pensamos ser, como viver num estado de ser livre de toda forma de ilusão?

(continua)

Nelson Jonas Ramos de Oliveira

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!