Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

07 dezembro 2011

As sementes de uma rebeldia inteligente


D
esde a mais tenra idade, ele se mostrava avesso a qualquer tipo de amoldamento. Somente nos seus primeiros quatro anos de escola, sentado nas primeiras carteiras, não apresentou problemas com suas notas. As únicas reclamações ouvidas por sua mãe nas reuniões de pais e mestres, — as quais deveriam ter seu nome alterado para “Reunião de mães e débeis” — visto que a maioria dos homens sempre dão uma desculpa para delas estarem ausentes, é que o garotinho de pernas tortas, botas ortopédicas, com seu cabelinho preso ao lado por um pouco de brilhantina, falava demais. No quarto ano é que passaria a se sentar nas últimas carteiras da sala, junto a outras crianças, que pelos professores destituídos de inteligência amorosa, eram chamadas de "problemáticas". Ao lado delas, ele começaria a colecionar além de uma série de notas vermelhas numa amassada carteirinha escolar, uma série de atos de violência física e psicológica por parte de alunos mais velhos que ali cursavam o ginasial. E foi assim que anos mais tarde conseguiria a façanha de repetir o primeiro ano ginasial por três vezes, sendo que a última repetição não se deu por causa de suas notas, as quais agora, em azul, se mostravam excelentes, mas sim, devido o grande número de faltas. O fato mais curiosamente doloroso nisso tudo: nenhum dos chamados "mestres" foi capaz de interpretar os tais "problemas" como um saudável pedido de ajuda contra um sistema educacional orientado para a compulsão ao ajustamento, a padronização e a especialização, assim como para a violência física e emocional de um lar profundamente disfuncional. 


O jovem nunca quis saber de seguir cronogramas e horários, por causa disso, quase nunca sabia qual seria sua próxima aula. Ficava em pé na beira da porta da sala de aula para ver a qual cabeça dura de jaleco branco teria que dedicar 50 minutos de seu cérebro e coração. Quando via que o grau de chatice do assim erroneamente chamado “mestre” era muito intenso, escapava rapidamente pelas escadarias de cerâmica vermelha, cercada de verdes paredes riscadas, para se juntar ao fundo do colégio, atrás das úmidas paredes do teatro, a um pequeno grupo de músicos apreciadores de garrafas de vinho barato, que entravam pela porta da frente da escola, escondidas sob o suado sovaco de algum deles, com ajuda de um sujo avental branco. Junto à eles cantava canções e recitava suas primeiras poesias, as quais eram por ele assinadas com o pseudônimo de "Petty Poeta" (em sinal de rebeldia as chatas aulas de francês). Intercalava música, poesia, beijos, rápidas apalpadas em pequenos seios e pelos pubianos em desenvolvimento, e também seus esportes preferidos: vôlei e futebol. 


Olhava seus professores, a grande maioria com a inteligência mediana do velho e ranzinza Dr. Smith, sempre perdidos no espaço vocacional, destituídos de verdadeira sabedoria e psicologia, perpetuando um planejado e arcáico calendário escolar, cujo ofuscado brilho e cheiro de mofo, em absolutamente nada atraiam seu ser. Deparava-se com disaborosas matérias que o forçavam (não só ele como aos demais alunos) a uma ridícula decoreba tendo em vista a futura conquista de uma nota média, com promessas de um futuro brilhante, com o qual agradariam pais, professores e diretores escolares (os quais através da conquista do ano letivo por um determinado número de alunos, conseguiriam o coeficiente necessário para garantir do Estado uma significativa verba para o ano seguinte). 


Nunca houve por parte de seus professores uma real preocupação por aquilo que naquela época, o jovem já desconfiava ser o sentido de uma Verdadeira Educação. Naquela escola não se ousava falar sobre emoções e sentimentos. Não se falava de observar a Grande Mestra Natureza. Não se ensinava a leitura da voz do coração. Não se ensinava poesia, nem as maravilhas dos contos e lendas. Nunca falaram que corrupção é muito mais do que aceitar dinheiro por debaixo da mesa, mas sim, aceitar ser conivente com aquilo que vai contra a própria consciência e coração. Suas salas eram como um velho teatro destituído da verdadeira alma que o movimenta: a paixão. Ali só se falava de tabelas periódicas, nomes de reis, rainhas, rios, capitais, gametas, esporângios, siglas constitucionais, decorados 2x2= 4 elavado a 5ª potência decorativa do certo, errado. Ali, não havia a possibilidade de se assinalar outra alternativa correta... Tudo isso vindo da raiz quadrada das mentes de professores notoriamente entediados. Ali faltava paixão, faltava poesia e, portanto, essência, Vida. Em conseqüência, dali saiam bem letrados ajustados alunos, condecorados com diploma, medalha e cartas de motoristas, pagas pelos seus papais. Estes, completamente destituídos das vogais que fazem o coração vibrar e sentir e que nos brindam com a capacidade de nos dirigirmos de forma assertiva pelas sinuosas estradas da Vida. Dali saiam jovens com almas embrutecidas, com aptos currículos em consonância a insensibilidade de um sistema altamente corruptível. Uma verdadeira fábrica de "adolescentes adultos crianças", totalmente destituídos de som próprio, articulando decorados ruídos de terceiros, que para orgulho de seus pais, saiam dali com seus canudos embaixo do braço, onde dentro dele, folhas de papel com estampilhas douradas a serem emoldurada e penduradas nas paredes igualmente tortas de uma futura sala qualquer, onde a qualidade do ar em seus cérebros, seria tão natural quanto a de um aparelho de ar condicionado. Ou então, numa segunda opção, cujo número era bem menor, jovens como ele, que por não permitirem o embrutecimento de suas almas, eram por todos tidos como desonrados rebeldes iletrados, a serem ainda mais castigados, numa vã tentativa de amoldamento, pelos adultos seguidores de um velado lema: "Há que se endurecer, mesmo que estes percam a inteligência da ternura". O jovem se ressentia pelo arcaico  tipo de sistema de educação, o qual era destituído de um “método” capaz de fazer com que todos os envolvidos, professores e alunos, se tornassem seres humanos amadurecidos, capazes de pensar nos problemas por si mesmos, livres do medo que faz com que, quando adultos, se agarrem na pseuda-segurança de emprestadas certezas, estas sempre em acordo com alguma estupidez tradicional, que remete a todos à estagnação da verdadeira liberdade do espírito humano. Um sistema que condena aos seus alunos a serem verdadeiros "caçadores de profissão, ou melhor de uma limitante especialidade desde que seja lucrativa, ao invés de uma vocação que faça com que os mesmos, por causa de seu encantamento, fiquem tão maravilhados ao ponto de com bom grado, perderem horas e mais horas de seu precioso sono. Que os incentive, se preciso for, a passar fome ou quem sabe, até morrer, mas nunca se dedicar a uma atividade comercial estúpida que os fará infelizes para o resto de suas vidas. Ele se ressentia do tipo de educação que forçava a todos ao ajustamento e não ao salutar questionamento social, ajustamento esse que faz com que, ao passar dos anos, todos tenham o adormecimento da capacidade de se sensibilizar.

Diante dessa triste realidade, ele corajosamente escolheria, ao invés de sair pelas ruas com camisetas estampadas com frases do tipo "Chê vive", (como assim faziam alguns poucos destituídos de uma rebeldia inteligente), de forma anônima e silenciosa iniciar sua própria rebelião para quem sabe um dia pudesse gritar ao mundo em forma de poesia, com a mesma energia dos heróis capitães e piratas feirantes:
"Che:
Sabes o que é Vida?
então, rebela-te!"

Anos mais tarde, já na faze adulta, escreveria em seu livro a seguinte constatação:
Foram tantos anos inconscientes em Exatas
Que precisei de um profundo mergulho em Biomédicas
Para tomar consciência do pouco que em mim ainda restava de 
Humanas.


Nelson Jonas Ramos de Oliveira

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!