Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

15 agosto 2007

Liguem o campo de força para os homens de sucesso

- Jr, bom dia!

- Fala Celsão! Cadê a Bicicleta?

- Estourou a corrente e estou sem grana para concertá-la. Esse lance de grana está russo; está espremendo cada vez mais! Passei aqui para te fazer uma pergunta, você precisa me ajudar!

- Se estiver ao meu alcance, tudo bem!

- A pergunta até que é fácil, difícil está sendo achar respostas para ela!

- Diga lá!

- Como viver neste mundo sem corromper e sem se permitir ser corrompido? Como viver neste mundo de falsos valores sem corromper os próprios valores?

- Caracas! Não podia pegar mais leve logo cedo?

- Cara, estive pensando e não vi nenhuma solução para isso! Tenho visto que a estrutura social se baseia inteiramente na hipocrisia. Tudo que eles aí fora chamam de moral, não tem nenhuma relação com a verdadeira moral: é puro jogo de interesses e hipocrisia. Tudo! Tudo que está aí fora é formado através da hipocrisia, mentira e rolo. Por isso que fica difícil tirar os valores necessários para o próprio sustento, o que não tem nada a ver com essa idéia medíocre de ter que "vencer na vida". Tenho visto que para ser um bom vendedor, tenho que ter o talento para a mentira e para iludir. Quer ganhar dinheiro? Então, minta e venda ilusão. Invente um modo de fazer o outro acreditar que as necessidades desnecessárias são necessárias, e pronto: você será um homem de sucesso!... Você quer ganhar dinheiro: então, prepare-se, você vai precisar saber mentir e mentir muito bem, pois o mercado está cheio PHD'S em mentirologia. Para todos os lados que eu olho, vejo que para você vender, você tem que se vender e participar de uma espécie de jogo socialmente aceito: eu minto para você e você finge que acreditou e, desse modo, vamos intercalando os papéis...

- Você é fogo!

- Cara! Sério! Já vi isso aqui mesmo com você em ação.

- Como assim?

- Outro dia mesmo vi o quanto que você é péssimo mentiroso... Ficou jogando um monte de xaveco para aquela gordinha levar a bata de modinha que, a meu ver, ficou horrível que só! A mulher ficou mais gorda ainda e você dizendo para ela que tinha ficado uma beleza... Olhe bem por você mesmo, não acredite em mim! Tudo que está voltado no comercial está alicerçado na hipocrisia. Para você entrar nesse sistema, para você sobreviver no meio dele, para você conseguir tirar alguma coisa dele, você tem que saber mentir, você tem que ser hipócrita, se não, é fracasso na certa... O sistema te engole! Se quiser vencer, vendas os seus valores... A própria palavra "venda" já diz a necessidade de "vendar" os próprios valores. Se quiser, em algum momento da relação comercial, você terá que ser hipócrita, fazer caras e bocas, expressar um sorrizinho amarelo, meter uma máscara e tudo bem. Não tem outro jeito! Isso é socialmente aceito... As pessoas até dizem que se você quiser manter uma empresa de modo certinho, você acaba quebrando. Todo mundo sabe disso e participa do mesmo jogo que acaba criando sempre tensão, conflito e corrupção. O pior é que a gente que vê e não quer participar disso, acaba sempre sendo tirado como uma pessoa problema, alguém que ainda não conseguiu achar seu lugar na sociedade, alguém que não dá certo em nada e por ai vai... Já ouvi tanta coisa que você não faz nem idéia...

- E você pensa que comigo as coisas são diferentes, Celsão?

- Creio que não!

- Eu também tenho que mentir, contar histórias, ouvir conversas que não tem nada de nutritivo, papinhos altamente furados, fazer o jogo de algumas madames vazias, que afogam suas tristezas e frustrações em roupas, perfumes e bijuterias. Tenho que omitir o que realmente penso e sinto, tenho que ludibriar para poder conseguir alguns poucos trocados para poder arcar com o meu já bastante simplificado custo de vida. Quer queira, quer não queira, temos que jogar esse jogo. O senhorio do prédio não quer saber se eu estou buscando um modo de vida calcado em valores sólidos; no dia do aluguel, o valor tem que estar lá. As cias de água, luz e telefone também não, muito menos o dono do mercado aqui do bairro. Todos participamos desse mesmo joguinho nojento.

- Cara, como dói ter que silenciar essa voz que fala baixinho aqui dentro de mim, para poder dar ouvidos a essa voz das exigências sociais. Não é fácil; isso gera um desgaste de energia descomunal. Chego em casa totalmente acabado.

- Celsão, por várias vezes fui obrigado a ser hipócrita comigo mesmo, negar aquilo que eu sinto, que eu penso, que eu intuo, e me submeter a esse joguinho porque tenho um monte de boletos bancários esperando para serem pagos. São valores impostos e que nem tem como serem discutidos, tais como os valores mínimos da conta de água para os estabelecimentos comerciais, os valores das assinaturas de telefone, os ICMS das contas de Luz - já viu isso, imposto de circulação de mercadorias para conta de luz! Tenho que mentir para conseguir um montinho daquele papel impresso numa gráfica qualquer para pagar aquele montinho de boletos, também impressos numa gráfica qualquer.

- Isso é uma coisa de louco, não é cara?... Neguinho comendo neguinho por causa de um montante de papel!

- O pior é que, na minha mão, esse papel chega e não fica nem por um dia, porque o mesmo não tem propriedade... É uma coisa corrompida; não dá nem tesão de pegá-lo nas mãos. Não é fruto de uma troca amorosa... É fruto de um joguinho hipócrita, que já vem corrompido em si mesmo. É um monte de papel sem substância real; de real, só mesmo o nome. Isso porque já é fruto de uma contrariedade. Não sei você, mas eu, todos os dias me levanto com aquela sensação de que acordei para me contrariar... É o dia todo tendo que me contrariar.

- Nem me fale! São todas atividades que são "contrarias ao meu ar", por isso que são de contrariar... São todas contrárias ao ar que me move. Mas, para eles lá fora, eu é que sou o problemático, o cara que não consegue sucesso... Será que para ter sucesso lá fora, terei que me conformar em me contrariar, em me submeter, em abandonar os meus valores internos em favor dos falsos valores externos? Pior cara, que a grande maioria que me critica pelas costas, são exatamente aqueles que há muito tempo já se venderam para o sistema. Aceitaram, trocar suas aspirações – se é que algum dia aspiraram algo – por aquilo que "dá mais dinheiro"... Tenho notado tudo isso! O que tem preenchido os meus dias tem sido a mesma pergunta: o que eu posso fazer para conseguir o mínimo necessário para a minha sobrevivência, de modo que eu não precise corromper ninguém e muito menos ser corrompido?

- É uma ótima pergunta, Celsão!

- Eu notei que em todo o lugar que eu corro, é como se fosse um labirinto, cara!... Vai por aqui... Não é!... Vai por ali... Também não é!...

- Eu não sei se isso acontece com você, mas comigo acontece muito que a grande maioria das coisas que me vêm na mão, são sempre problemáticas... A maioria das coisas que chegam para eu fazer, só de bater os olhos já vejo que vai dar enrrosco, que vai dar problema, confusão e desgaste desnecessário de energia...

- Nem me fale! Acontece direto comigo! É um saco, cara!... É um saco para você fechar a venda, é um saco para você poder entregar e um saco maior ainda para você conseguir receber... E depois, um saco maior ainda para receber da sua empresa! É muito nervoso, cara!... O problema é que a grande maioria só está preocupada com o ter, ninguém está preocupado com o ser, e com o ser que o outro é. Primeiro eu quero ter, e não me importo se para poder ter, eu tenha que passar por cima do seu ser. Cara, não consigo fazer esse jogo e mesmo que conseguisse, não tenho a mínima vontade de fazê-lo. O foda é ter que ficar aturando aquele olhar silencioso dos familiares...

- Já vivi isso na pele!

- Cara, o jogo é sempre o mesmo... O homem foi condicionado a ter para poder ter a mulher que ele quer ter, assinando um pacto para mantê-la. Ela assina o acordo e estamos conversados. Se você não tem, ela vai embora e faz você ter para ela, obrigado judicialmente... É ridículo ao que o homem se submete para poder jogar esse jogo!

- Eu vejo que os meios de comunicação vão programando as pessoas desde a mais tenra idade para esse processo do vir-a-ter e não do ser... É a corrente de ouro, é o relógio não sei da onde, é a faculdade no país tal, é a camisa, o carro, a casa, o diploma na parede, o celular, o peitox, o bundox, o siliconox e por ai vai... Ninguém quer ser um anônimo, todo mundo quer sair em Caras, mesmo que tenha que mostrar a bunda! Cara, está tudo aí, mas me parece que ninguém quer ver nada. Elas têm esse direito de não quererem ver nada, mas será que elas também tem o direito de me forçar a fechar meus olhos e participar de tudo isso?... Cara, as pessoas não olham para mim, mas sim, para a minha imagem, para o meu sapato, a minha calça, a minha camisa, para o modelo e ano do meu carro, o tipo do meu celular, o bairro que eu moro, a escola em que estudei... Pelo ser que eu sou, ninguém se interessa... Só há interesse se eu de alguma maneira for funcional para aquilo que elas estão buscando... Eu mesmo, sou totalmente descartável, mera peça do joguinho!

- Eheheh!

- Jr, me ajuda! Eu fico vendo isso e às vezes chego a pensar que estou ficando louco!... Cara, é sério! Eu estava vendo na revista qual é o livro que está sendo mais vendido nas livrarias... Sabe qual é?... The Secret!... Cara, isso é brincadeira! Esse filme é uma verdadeira falácia... É só atrás de dinheiro que as pessoas estão atrás... Os caras estão tão programados que não pescam nada, não percebem nada! Não conseguem ver o quanto estão sendo condicionados ao consumismo que lentamete os consome.

- É isso mesmo, Celsão!

- Eu vejo as coisas... Lá em casa mesmo! Você sabe bem a minha situação: não tenho grana para quase nada, somente o que é essencial. Quando eu chego em casa, sou tratado de uma forma diferente como é tratado o meu irmão que está, entre aspas, "estabilizado profissionalmente"... E não pense que isso é mania de perseguição de minha parte: isso é um fato! A coisa é sutil! Dá para perceber pela linguagem do corpo e pelo tom da voz!

- Uma pessoa condicionada a esse modo de ser, ao ouvir o que você está dizendo, logo rotularia você de "invejoso"...

- Eu, inveja daquele pobre coitado que passa o dia trancafiado dentro de um shopping, numa média diária de dez horas, fazendo exigência descabida de uma equipe de vendedores estressados e mal pagos?... Estou fora!... A coisa está tão corrompida aí fora, que é preciso tomar muito cuidado...

- Celsão, você precisa mesmo tomar muito cuidado com quem conversa sobre isso aí fora. Se você não estiver atento, eles vêm com aqueles chavões, com aqueles programinhas para você se adaptar a esse sistema de valores que desvalorizam o ser em nome do ter. Se você estiver desligado, se você não estiver com o seu campo de força ligado, as sentinelas que estão aí, tentando a todo custo invadir o seu cérebro, acabam entrando e fazendo um enorme estrago. Tem que ficar esperto se não, automaticamente se instala o conflito gerado pela comparação e, como você bem sabe, toda comparação faz parar a ação.

- Nem me fale, Jr! Outro dia mesmo eu vi isso... Estava indo com minha garota ao shopping; estávamos de metrô. Quando passei, a pé pelo estacionamento do shopping, o cabeção já começou a apitar...

- Imagino!

- Cadê seu carro? Um cara da sua idade sem carro? Cadê o celular? Cadê os cartões de crédito?... Daqui a pouco, nem mulher você vai ter mais!... É assim que a cabeça mente!

- O campo de força tem que estar ligado!

- Jr, onde é que estão os homens que pensam como nós?

- Acho que somos um tipo em extinção!

- Cara, eu não me conformo! As pessoas ficam incomodadas com o meu comportamento e acham que eu sou um cara problemático porque não compactuo do mesmo tipo de ambição delas... Algumas estão tão cegas que não percebem que também sou ambicioso, só que em outra área: ambiciono ser um cara totalmente livre! Elas ficam me cobrando que eu não tenho ambição, que eu não penso em progredir na vida, em ser um cara realizado materialmente falando... E eu olho para a vida dessas pessoas, que aos olhos do mundo são pessoas tidas como verdadeiros homens e mulheres de "sucesso", e não consigo ver beleza em seu olhar, em seu sorriso, não vejo nada de nutritivo nas palavras que pronunciam, nas coisas que buscam, nos ambientes que freqüentam... Só vejo um enorme vazio repleto de coisas vazias... Uma coleção de propriedades isentas de real propriedade!... E aí, quase no final de suas vidas vazias, as vejo correndo para ações filantrópicas, participando de "clubinhos espiritualistas", congressos esotéricos, "caminhos espiritualistas" e toda essa babaquice que só serve para ampliar ainda mais a mediocridade da vida dessas pessoas – se é que podemos chamar isso de vida!...

- Eles têm olhos de ver, mas não vêem!

- Eu ambiciono progredir não no externo, mas no interno: quero mais inteligência, sensibilidade, amorosidade, humanidade... Para essas pessoas, o progredir é sinal de matéria, de viagens pelo mundo a fora, menos a viagem mais importante que é a viagem para dentro de si mesmas. É casa, conta bancária gorda, carro do ano e de preferência importado, corpo sarado, tecnologia de ponta e por aí vai! E depois de tudo isso, vivem numa constante insegurança, com seus carros blindados, condomínios fechados, cercados de câmeras de segurança e cercas eletrificadas, carros monitorados, chips nos dentes, apólices e mais apólices de seguros, porte de armas, segurança particular... Continuam prisioneiras de seus medos, só que agora, de medos mais caros!

- Eles não percebem que, aquilo que eles chamam de sucesso é a progressão homeopática de um sistema de campo de concentração: são prisioneiros de suas posses e de seus status! Perdem a liberdade das coisas simples da vida!

- Que loucura, Jr!

- Eles pensam que pessoas como nós, não ganham dinheiro por que não queremos! Nesta semana estive numa firma fazendo um serviço de computação gráfica. Em determinado momento, um dos donos me falou: cara, você com um talento desses e se permite ficar embaixo daquela árvore filosofando ao invés de ganhar muito dinheiro com isso?... Ninguém me perguntou o porquê de eu não querer viver louco atrás de dinheiro como eles pensam ser necessário... A visão deles é a de que eu não ganho dinheiro por que não quero, por que sou vagabundo... "Mas você tem um enorme talento, por que você não faz uso disso?"... A minha vontade é falar que eu não faço uso disso por que cansei de ter que ficar ligando para as pessoas e ouvir o mesmo tipo de resposta ensaiada pela secretária de que o dono não está, de que saiu para uma reunião, de que teve que ir levar a esposa ao médico e por aí vai. Que não faço uso disso por que cansei de ter que ficar mentindo para vender meu trabalho, de fingir que acredito nas historinhas que me contam para atrasar o pagamento do serviço e por ai vai! Por que cansei de ter que vender meu trabalho por um preço muito abaixo do que realmente vale por que pessoas como você fazem joguete com as pessoas"... Esse é o tipo de resposta que tenho a vontade que dar, mas, se o faço, perco a oportunidade do serviço e, então, sou obrigado a jogar o jogo.

- Pior é que é assim mesmo que as coisas funcionam! É muito perca de energia por um preço tão limitado!

- Mas a questão é que nos deparamos com os fatos que se apresentam agora!... Como ganhar nosso sustento, com contento e sem a corrupção dos nossos valores mais caros?

- Como eu gostaria de ter a resposta para essa pergunta, Jr; você não faz idéia de como isso me gera conflito! O pior, é que o preço das coisas aumentava cada vez mais e isso faz com que os valores necessários sejam cada vez maiores... E ninguém faz nada! Todos vão correndo feito macacos amestrados! Não é só o macaco que bate palmas em troca de uma banana: o ser humano também!

- E todo mundo vai, Celsão!... É uma verdadeira comédia!

- Cara, eu não consigo me adaptar a esse mundinho hipócrita dos negócios... Almoço com talão de pedido do lado, academia com talão de pedido do lado. Ninguém está nem aí pra você, mas sim, para o pedido que podem tirar em cima de você. Você não vale pelo que é, mas sim, pela assinatura no pedido. Você é algo totalmente descartável. Almoço cujo assunto é negócios, para mim, não dá.

- Pois é!

- Você quer deixar um cara desses embaraçado? Faz o seguinte: olhe bem no fundo dos olhos dele e pergunte se ele tem algum amigo de verdade... Sim, alguém com quem ele possa pensar alto, que possa dizer aquilo que ele realmente é, aquilo que ele realmente sente, sem ter que fazer uso de máscaras ou medir palavras, alguém com quem tenha real intimidade... De verdade!... Olhe bem a cara de bunda que o sujeito fica! Um cara desses não tem amigo, tem contatos! Um cara desses, para poder pensar alto, falar de suas intimidades, paga por um analista! Não quero isso para mim não, Jr! Prefiro que continuem pensando que eu sou um cara problemático, um cara utópico, um bobo! Eu prefiro que eles sejam os VIP's, eu prefiro ser um anônimo... Que loucura, cara! Os caras estão presos num circulo vicioso e não percebem. Transformam o cara num cliente Vip, com uma sala com ar condicionado e o cara se ilude que é mais importante que as demais pessoas, que é um homem de sucesso... Para, meu! O cara não percebe que é mais um otário do sistema, por que para bancar aquilo... Sabe-se lá!

- É a história do gatinho... Conhece?

- Não!

- Tinha um cara que vivia pescando, até que um mui amigo lhe deu um gato. Foi quando ele percebeu que o gato precisava de leite, então ele decidiu comprar uma vaquinha. Quando ele comprou a vaquinha, percebeu que precisava construir uma cerca. Para colocar a cerca, contratou dois funcionários. Depois que cercou o terreno, percebeu que precisava construir um galpão para proteger a vaca do tempo ruim. Ai, o amigo que deu o peixinho pra ele, sugeriu que ele começasse a criar vaquinhas para vender leite na cidade, já que ele tinha o terreno cercado e o galpão construído. Quando ele despertou, estava com mais de 100 cabeças de gado, uma média de 20 funcionários e sem o tempo livre para poder pescar e comer um peixinho fresco... É Jr, aceita o gatinho do cartão de crédito, do cheque especial e do cliente Vip... Vai lá!

- Estou fora! Quero curtir o simples! Quero muito mais do que esperar pela aposentadoria para poder curtir a vida sem sentido, quero curtir a vida agora! E por falar em agora, já estou indo! Valeu pela prosa! Estava mesmo precisando de um par de ouvidos fraternos! Ainda bem que você não tem secretária e nem funcionários, senão, com certeza, teria que consultar sua agenda para poder falar com você!

- É cara, a coisa funciona desse jeito mesmo! E nós é que somos loucos!

- Santa loucura, meu irmão, santa loucura!

- Cuide-se bem!

02 agosto 2007

Matrix: o campo de concentração do nosso século

- Fala Celsão!

- E aí JR? Belê?

- Na boa! Só observando! Que conta de novo!

- Esse final de semana estive uma sacada e tanto... Estava assistindo um filme sobre a segunda guerra mundial quando me ocorreu um pensamento: todos nós vivemos numa espécie de campo de concentração... Um campo de concentração intensivo. Faz sentido para você?

- A Matrix, que simboliza a rede do pensamento condicionado é o "campo de concentração". Por isso estamos presos.

- Está todo mundo preso, JR. Mesmo a gente querendo sair, eles nos influenciam e nos mantêm presos.

- Você assistiu Matrix?

- Claro!

- Lembra-se daquela cena em que o Neo está caminhando com o Morfeu, dentro da Matrix, quando, no meio das várias pessoas vestidas de preto, surge uma mulher de vestido vermelho?

- Lembro sim!

- Então, o Morfeu diz que quando estamos dentro da Matrix, o que vemos são carpinteiros, engenheiros e outros mais. Todas essas pessoas que você está querendo salvar eles ainda são um inimigo em potencial. Todos eles podem lhe matar, ou seja, lhe manter preso dentro desse imenso campo de concentração que é a Matrix, ou seja, a rede do pensamento condicionado. Eles vão tentar te influenciar de algum modo para que você volte a "funcionar como um autômato" dentro da Matrix.

- Vejo isso acontecendo direto dentro da minha casa. Por vezes estou sentado no sofá da sala lendo um livro de filosofia, minha mãe passa por mim e solta as indiretas dela: isso é que é vida, parece um marajá... Quando é que você vai arrumar um emprego de verdade? Quando é que você vai pensar seriamente em arrumar um trabalho digno? Você precisa ganhar dinheiro!

- Pois é! Se você se identifica com esse tipo de influencia, um abraço: de volta para a Matrix. Isso realmente é um campo de concentração! Porque é um campo que concentra toda a sua ação na busca do consumismo e na prestação de contas. Sua ação fica só nessa esfera. Você precisa voltar a assistir o filme Matrix por essa ótica que estou lhe falando. Está tudo lá, nas entrelinhas. Neste final de semana estudei esse filme com um grupo de amigos evolutivos e foi de muito proveito.

- Imagino! Você é foda! Nunca me dá um toque desses estudos! Quando é assim, vê se me liga!

- Eu e um amigo meu estamos pensando em escrever sobre esse estudo do filme. Para nós está claro que a Matrix é uma metáfora para exemplificar a ação da Rede do Pensamento Condicionado. A gente é constantemente bombardeado... Basta sentar um pouco para meditar que a mente já começa com as comparações, ou insinuar que você deveria estar se ocupando com outras coisas mais importantes. Você sabe muito bem como funciona isso! Ela não te deixa ir atrás do que é essencial; isso está muito claro para mim!

- Precisamos marcar para estudar esse filme juntos.

- Basta querer! É muita informação! O filme inteiro tem muita coisa em comum com as idéias de Krishnamurti; não quero afirmar com isso que o filme tenha sido inspirado no pensamento dele. Existem várias visões espalhadas pela internet, esta é apenas mais uma. No entanto, para nós, satisfaz muito. Esse filme foi muito bem bolado, cena por cena, fala por fala... É tanta informação passada de forma tão rápida que por vezes, passa sem perceber. Por isso que é legal sentar em grupo para estudá-lo.

- No telefone você estava me falando que a nave "Nabucodonosor", seria a representação do cérebro, é isso?

- Sim! A nave seria o cérebro humano, e a sua tripulação seria a intuição, o observador, o pensamento técnico, o boicotador, os opostos. Os sentinelas que tentam invadir a nave são os pensamentos do coletivo que estão sempre prontos, esperando por um vacilo seu para que possam atacar e dominar sua mente. Os sentinelas querem entrar na sua mente de forma violenta... Os sentinelas são as "iscas sociais e parentais"...

- E se marcar entra mesmo, não é JR!

- Se você não tiver um "campo de força", entra mesmo! Lembra-se do campo de força que mostra no filme? "Pois é meu caro, pois é"! Esse campo de força é a sua observação! Sem a observação você é um elemento extremamente vulnerável.

- Entra mesmo!

- Mesmo já tendo desenvolvido esse observador interno, mesmo esse observador ainda é pensamento! É por isso que ele corre o risco de ser pego pelos sentinelas da Matrix.

- Interessante que no final do filme o Neo morre...

- Nada disso: quem morrer é o Anderson – a representação do nosso lado condicionado, e, portanto, isento de inteligência, inocência e energia criativa. Ele precisa morrer para que o nosso lado Neo possa ter vida em abundância. O Anderson precisa nascer.

- E os agentes Smiths?

- São a representação da natureza do pensamento coletivo... São todas as manifestações de pensamentos e emoções doentias como o medo, raiva, cólera, inveja, ciúmes, prepotência, covardia... As balas representam esses sentimentos, esses pensamentos que roubam uma energia imensa do ser humano...Enquanto Anderson, era preciso gastar muita munição, muita energia, era preciso correr, buscar por mecanismos de fugas, dependências externas para poder fugir do ataque dos pensamentos... Quando o Anderson morre, que é nosso lado condicionado, ele tem uma experiência direta dessa inteligência amorosa, que é toda energia, que se manifesta da fusão entre observador, coisa observada e intuição... Ali nasce o Neo, o novo, aquele que já não é mais corrompido pela ação do pensamento.

- Faz sentido! Nessa cena os pensamentos tentam atacá-lo, mas não tem mais força contra ele.

- As balas nem chegam mais até ele... O que são as balas? Todas as formas de "influências externas"... Já não tem mais o poder de atingi-lo... Ali é a representação que, quando descondicionado, você enxergar com propriedade todo o movimento da Matrix, do pensamento coletivo e, por enxergar, já não é mais influenciado por eles.

- Duca em JR?

- Ali, Neo, ao invés de fugir dos pensamentos, ao contrário, ele o ataca bem no seu centro... Quando ele entra no centro do pensamento, o que ocorre?

- Ele arrebenta com o pensamento e se ilumina todo! Sai um monte de luz! E os demais pensamentos saem correndo!

- Ali é a representação de que os pensamentos deixam de governar a vida do ser humano para serem apenas servidores de confiança de uma inteligência amorosa. Neo, passa a ser um canal de manifestação dessa energia amorosa criativa, capaz de ver a ação do falso, a influência, o condicionamento, sem se identificar com o que vê. O filme todo mostra os vacilos que damos, os medos de estarmos ficando loucos enquanto no processo... Preste bastante atenção nas expressões do Anderson durante o processo de descondicionamento. Ele tem dúvidas o tempo todo e só no final é que ele deixa de lado a "imagem" que ele tinha de si mesmo e se vê como realmente é. Só então ele tem condições de não mais ser influenciado pela rede do pensamento condicionado.

- É mesmo!

- Só ali ele aceita que ele é o Neo. O agente Smith queria sempre condicioná-lo de que ele era o Sr. Anderson, lembra-se?

- Sim! Em outras palavras, ele queria dizer que ele era um cara condicionado, sem poderes para alcançar a excelência do ser.

- O interessante são as cenas em que eles enfatizam a quantidade de munição que é preciso ser gasta para enfrentar os ataques do pensamento condicionado; quanto de conflito, de intriga e destruição que ocorre entre esse conflito de opostos.

- Sem essa visão, o filme passa a ser apenas um "filminho de violência".

- Pois é, Celsão! Pior é que a maioria não viu nada disso!

- E o Cypher, JR?

- Cypher é a representação das pessoas que entram no processo, mas que estão sempre de espreita, fazendo intrigas entre as pessoas que estão no processo, jogando uma contra outra, fazendo uma fofoca aqui, outra ali, fingindo ser uma coisa na sua frente e agindo completamente diferente quando longe de você. São pessoas dúbias, de comportamento duplo. São essas pessoas que entraram na caminhada, mas que não conseguem lidar com o que é, com os desafios constantes que se apresentam e que optam pela zona de conforto, da respeitabilidade, do prestigio e do prazer e começam a fazer parte novamente do sistema. Elas dizem que querem acordar, mas na realidade, o querem é dormir. Essas pessoas passam a ser "informantes" da Matrix. Cypher é a representação desse nosso lado de auto-boicote. Conhece alguém assim?

- Tá lotado, JR! Rá Lotado! Trairagem é que não falta!

- Cypher é a representação dessas pessoas que preferem se conformar com essa vidinha socialmente aceita, que está dentro do script do padrão condicionado pelo social, pelo pensamento coletivo.

- Lembro-me de uma fala do Cypher em que ele dizia que não queria se lembrar de nada, que ele queria voltar e ser um home de sucesso!

- Ele diz que não quer lembrar-se de nada por quê? Porque ele já tem a informação interna e aí fica difícil "servir a dois senhores". Fica difícil viver na Matrix tendo toda essa informação!

- Não tem como, JR!

- Esse filme mostra o tempo todo a falsidade da imagem, da palavra, do tempo... Há uma fala do Morfeu em que ele diz para o Neo que o tempo é o nosso maior inimigo. Esse tempo é o tempo psicológico, talvez o maior inimigo do ser humano. Você se lembra do diálogo em que eles estão se alimentando na nave e o menino começa a dizer que aquela gosma poderia ser um monte de coisa? Que ele pergunta sobre quem é que disse que o gosto do frango é do frango mesmo?

- Sim, o que significa?

- Que a palavra não é a coisa!

- É mesmo! Krishnamurti na veia!

- Pois é! Já estamos colocando os nossos estudos no site da Cuidar do Ser. A idéia é colocar o estudo do filme inteiro. Já estamos com oito capítulos no site.

- Dez! Cara, vou voltar aqui para a gente estudar esse filme junto! Agora, como sempre, vou correr atrás de uns "courinhos de rato" para pagar a papelada lá de casa. Vou sair por ai contando umas mentirinhas básicas para ver se vendo alguma coisa... É foda!

- Pega leve! Continua firme no processo que a qualquer momento sua "expressão de vida" se manifesta! Por enquanto, o lance é ir "sobrevivendo".

- Pois é cara, é assim mesmo que eu me sinto: tentando "sobreviver" neste imenso campo de concentração chamado "capitalismo". Este mata mais que os porões da morte de Auschwitz-Birkenau ou Dachau.

- Me identifico com você! Sobreviventes meu caro, sobreviventes!...


 


 


 

26 julho 2007

As flores de plástico não morrem

Já fazia mais de um mês que Celsão não dava o ar de sua graça. Mesmo com a fraca chuva da manhã, como sempre, com sua bicicleta, de mochilas e o velho blusão de lã verde, aqui estava ele com sua simplicidade. Pelo seu olhar carrancudo e pelo tom de sua fala ao me cumprimentar, pude perceber que ele não estava bem e que algo desagradável havia lhe ocorrido.

- Fala Celsão! Ainda bem que "quem está vivo sempre aparece!"

- Não sei não, Jr! Desculpe-me pela franqueza, mas, acho que esse seu dizer não está muito coerente com o que vejo...Para mim, quem "realmente" está vivo "nunca aparece"... Só os "mortos" tem essa necessidade doentia de aparecer. Essa imatura necessidade de estrelato é só para aqueles que já apagaram a chama interna que produz o brilho do próprio olhar: quem está vivo é um anônimo.

- Interessante!

- Você pode constatar isso com seus próprios olhos: a sociedade só enxerga o que é ilusório; eles não têm olhos para o Real. Eles estão em busca, tão somente, do que é temporal e não daquilo que é atemporal.

- Nesse ponto, estou 100% com você!

- Se você estiver correndo, como todo mundo, atrás do que é ilusório, do que é temporal, então, eles têm olhos para você. Você corre o risco de ser rotulado como um "homem de sucesso", alguém que está "se dando bem na vida"... Você passa a ser visto porque, de certo modo, você também está explorando os outros, assim como igualmente está sendo explorado. Agora, se você estiver seriamente engajado num processo de "auto-exploração", de auto-conhecimento, e por meio desse autoconhecimento deixando de explorar e de também ser explorado, então, você não aparece. Além de não aparecer, passa a ser logo rotulado com vários nomes, tais como: vagabundo, preguiçoso, problemático, neurótico, alguém que não leva nada a sério, e assim por diante... Meu irmão, quer saber de uma coisa?

- Diga!

- Já estou com o saco cheio disso! Já não agüento mais as cobranças dos meus familiares e de alguns conhecidos!

- Por quê? O que mais está pegando?

- Grana! Neste planetinha, o que mais é grana!... Parece que aquilo que realmente mantém uma família "unida" é a tal da grana...

- Será que você não está sendo severo demais?

- Que nada!... Se você têm grana, se você colabora com a enorme soma de superficialidade, com aquele monte de supérfluas necessidades desnecessárias, então, tudo bem! Você é um membro querido da sua família. Caso contrário, você já não é mais querido, passa a ser um peso, um estorvo para a sua família. Então me questiono: Quem realmente é o querido? Eu ou o dinheiro que coloco em casa?... Quem é que tem mais valor? Eu ou aquele montinho de papel impresso numa gráfica qualquer com o patético nome de "Gráfica do Tesouro Nacional"?... O dinheiro fala? Quem tem mais poder de falar, eu ou o dinheiro?

- Caracas!

- Quem estaria ficando louco?... Eu por não sentir a necessidade de correr atrás desses valores que para mim pouco valor tem, ou eles, por se submeterem a verdadeiras loucuras para conseguir garantir os mesmos?... Cara, estou puto de raiva!

- E qual o problema de se estar com muita raiva? Por acaso, negar os seus sentimentos ou os seus instintos básicos tornaria você mais humano?

- Claro que não! Estamos carecas de saber isso! Creio que ao contrário: somente observado os mesmos sem a menor sombra de julgamento, racionalização ou justificação é que pode me devolver a qualidade por muitos negligenciada de ser humano. Vejo que é justamente em razão de se perseguir esses ditos "valores" destituídos de real valor, é que muitos descartam o que há de maior valor em si mesmos: sua humanidade, ainda que adoentada.

- Não é preciso ser filósofo ou um grande pensador para ver a realidade do fato que você está me falando. Abra um jornal ou ligue um aparelho de Teleilusão e você terá uma seqüência interminável de fatos do cotidiano de diuturnamente abalam cada vez mais a humanidade da dita humanidade.

- Pois é, cara! Agora eu lhe pergunto: você consegue ver algo de humano na carga horária de trabalho, para muitos de 8 a 10 horas, convencionalmente aceito por todos, em troca de uma verdadeira ninharia? Está correto dedicar mais da metade do seu dia em troca de algo que mais se parece com esmolas? Acha que existe algo de humano em ficar brigando por um lugar na condução, enfrentar em média 3 horas na mesma entre ir e voltar do seu local de trabalho? É humano tamanho trabalho por um trabalho? Você acha que existe algo de humano na atual situação do transporte público? Os caras agora estão fazendo um baita barulho por causa do transporte aéreo, que é um privilégio de uma pequena fatia populacional, no entanto, não existe o mesmo barulho com relação ao transporte urbano, ao transporte da massa, do povão... Você já pegou o Metrô na Estação Sé, sentido Zona Leste por volta das 18:00 horas?... O que existe de humano ali? Estamos sendo tratados como animais de abate em direção ao abatedouro... Existe uma espécie de curral que impede que um "animal" passe por cima do outro animal... Qual a diferença existente entre um abatedouro e a estação Sé do Metrô? Para mim, nenhuma!

- Para mim, já há uma grande diferença!

- Qual?

- Um abatedouro é muito mais humano!

- Como assim?

- Um abatedouro leva à morte em poucos minutos e com uma ou duas pauladas na cabeça. Já esse sistema capitalista, bate diariamente em nossa cabeça com o martelo do consumismo, com o qual nos vai "abatendo com dor" homeopaticamente.

- Sim, sim, você está com toda razão! Eles vão tirando o sangue da população, lentamente, sem que eles consigam ter consciência desse macabro processo. Para que o gado humano não perceba os gritos de abate de algum boi, eles inventaram o aparelhinho de MP3. O gado diariamente, a caminho do local de trabalho, enfia os fones nos ouvidos e "áudio se transporta" dessa realidade desumana. É preciso muita música externa para abafar o barulho do silêncio provocado pelo vazio interior. Ninguém quer ouvir nada! O pior de tudo, é que o gado lá de casa não se conforma por eu querer me "desgarrar" da manada que só dá lucro para o dono da fazenda... Você sabe o que quer dizer a palavra "fazenda"?... Conjunto de bens, haveres, grande propriedade rural, de lavoura ou criação de gado, recursos financeiros do poder público... Que poder público é esse em que o público não tem poder?... O gado lá de casa quer que eu seja mais um "executivo" executando a lei de consumo, sem a menor dó ou simples reflexão.

- Em outras palavras, eles querem que você se "vende" e "venda" a sua integridade, a sua humanidade.

- Sim, para eles, isso não tem valor algum, afinal de contas, isso não paga contas! Cara, está tudo invertido! Os caras trocaram o Real pelo ilusório!

- Você sabe por que meu amigo?

- Diga!

- Gostaria de lhe responder com mais propriedade, no entanto, o Sr. Yugi está chegando e eu preciso falar com ele agora. Faz o seguinte, vai para casa pensando nesta resposta: "Por que eles pensam que as flores de plástico não morrem!"

- Como assim?

- Vê se dá para você passar amanhã à tardinha para um café, assim podemos falar mais sobre isso! Enquanto isso, continue viajando nas estradas da vida, tocando sempre o seu "berrante", não para tocar a boiada, mas quem sabe, para provocar um verdadeiro estouro! Quem sabe assim, o dono da fazenda um dia caia do cavalo e repense em como tratar melhor o gado colocado aos seus cuidados. Vai nessa! Cuida-se! Transmita um efusivo abraço financeiro em sua família!

23 julho 2007

A Ganância Tecnológica e seu olhar plasmático

- Olá garoto!

- Bom dia senhor! Como foi de final de semana?

- Um pouco gripado, mas agora melhor! Li seus textos desta semana.

- O que viu neles?

- Continuo achando que você precisa ver um pouco mais “o lado colorido das coisas”. Acho que é por isso que algumas pessoas enviam seus comentários lhe chamando de depressivo e pessimista. Acho que também é preciso contemplar o belo!

- Não discordo disso! No entanto, como contemplar o belo se a “normose”, essa patologia da normalidade operante impede a clareza de visão? Creio que o papel deste blogador é apontar para aquilo que obscurece o belo. O senhor que já convive comigo há um bom tempo, acredita mesmo que eu seja um maníaco-depressivo, um rebelde marxista ou um pessimista? Por favor, seja sincero!...

- Claro que não! Mas continuo achando que você precisa também colocar nos seus textos a arte de contemplar o belo.

- Desculpe-me, mas creio que em nenhum dos meus textos deixei de fazer isso. Ao contrário, neles expresso sempre tanto a beleza do cotidiano bem como as manifestações da normose.

- Sabe JR, o que tem me ajudado muito é procurar ver sempre o melhor das coisas... Veja por exemplo, a beleza do avanço da criatividade tecnológica... Você não tem visto as máquinas maravilhosas que o homem vem produzindo? Tenho gravado uma reportagem de uma série que está passando na TV a cabo, sobre o avanço tecnológico dos automóveis. Tenho achado fantástico! Assim que acabar a série, faço questão de gravá-la num DVD para que você possa assisti-la. Outra coisa que tem me chamado bastante atenção são esses novos aparelhos de TV.

- Quais? As LCD?

- Não, as de plasma! Quando me deparo com uma fico abobado com a sua nitidez. Parece que você está de fato diante da realidade!

- Sei!... Estive neste final de semana na megaloja em Pinheiros. Gosto de ir lá por que, além dela, ao seu lado, há vários sebos com vários livros esgotados. Nessa loja, os livros ficam no último andar do prédio. O piso térreo está forrado com o material de telefonia, games e informática. Depois você é forçado a passar pela sessão de imagem e som, e, por último os livros. Até a disposição das escadas rolantes foram projetadas para que você circule o máximo possível dentro da loja. Parece mesmo que neste país, até nas lojas os livros são deixados em último plano. Isso é fácil de constatar, basta você observar o ínfimo número de livrarias que se encontram por aí. Mas não é sobre isso que quero comentar. Quero falar do absurdo que vi nessa loja, no setor de TV: um aparelho de plasma no valor de R$38.000,00... Vi ali um grande contraste entre a realidade dos que se dão ao direito da luxuria burguêsa e dos meninos mal vestidos que mendigavam por um trocado para tomarem conta do meu carro na entrada da loja. Será possível para uma mente saudável se conformar com esse tipo de desequilíbrio social? Ou será que devo também fazer uso daquela esfarrapada desculpa usada pela classe burguesa que diz que eles fizeram por onde para poderem usufruir desses bens de consumo, enquanto que a grande maioria não quer saber de responsabilidades... Já estou quase careca de ouvir esses chavões egocêntricos, típico “Pôncio Pilatos”.

- Eu procuro sempre ajudar quando posso, mas nunca, dando dinheiro na mão desses meninos. Quase sempre estão ali sendo descaradamente explorados por algum adulto!

- Sei!... De certo modo, creio que todos nós estamos também sendo explorados por algum adulto... Existem várias formas de se explorar o ser humano... Algumas são mais notórias! Creio que a ganância tecnológica é uma delas. Veja só o que o homem está fazendo com o planeta e com ele mesmo em nome desse inconsciente avanço tecnológico... Creio que seria muito interessante o senhor assistir um filme que já circula pela internet, intitulado “Surplus”, em outras palavras, supérfluo. Quem sabe ficaria mais fácil de entender a minha visão.

Nesse instante, enquanto ele ponderava sobre o que eu havia acabado de expressar, fomos interrompidos pelo carteiro que me trazia alguns documentos que requeriam a minha atenção e assinatura. Como estávamos próximos do horário do almoço, meu interlocutor aproveitou-se do momento para se despedir e partir para seu almoço. Depois de despachar o carteiro e, novamente solitário em minha loja, coloquei-me a meditar sobre o que acabáramos de conversar.

Estaria a tecnologia realmente sendo usada para a criação de respostas para as reais necessidades sociais?

Ou, muito ao contrário, estaria a serviço do consumismo elitista?

Qual o limiar entre o supérfluo e o essencial?

A tecnologia tem realmente criado maquininhas fantásticas, levado o homem a distâncias astronômicas e, no entanto, parece se distanciar cada vez mais, talvez anos luz, da preocupação com o que parece ser realmente essencial para o bem-estar social.

O que se vê não seria uma tecnologia voltada para a concentração de capital, que vem a cada dia que passa gerando incontáveis problemas de todas as ordens, os quais o próprio capital não tem sido capaz de solucionar?

O que de fato atravanca a solução dos problemas básicos para o bem-estar social?

A falta de capital?

A falta de tecnologia?

Ou o “auto-interesse”?

Como manter a cabeça nas nuvens cor-de-rosa do avanço tecnológico e os pés na terra preta e fértil das reais necessidades sociais?

Só por hoje, o que me parece é que, para a classe burguesa, acompanhar o avanço tecnológico é muito mais sedutor do que a busca de respostas para a conquista de um equilíbrio social. Para isso, ela já conta com uma forte tecnologia de desculpas e algumas delas são: “não se pode ficar preso somente no lado escuro das coisas”, ou então, “o mundo não é perfeito e nunca será; não existe a menor chance de acabarmos com todas as coisas que nos incomodam, então de que adianta reclamar de tudo?”... Para muitos dos que fazem uso destes tipos de resposta, acham mesmo que é preciso olhar “plasmaticamente” para as coisas boas e simples da vida, menos para a vida simples daqueles pelos quais não queremos lançar o nosso olhar plasmado.

Infelizmente, as cores quentes de uma TV de plasma são muito mais sedutoras do que a frieza das cores da vida real.

Reflexões de uma segunda de chuva

Segunda-feira com chuva. Estou começando mais um dia, sendo logo cedo agraciado com a beleza de um milagre: uma pequenina e solitária pitanga amarelinha, envolta em gotículas d'água da chuva. Seu tom amarelado faz um belo contraste com as verdes folhas da pequenina árvore... Esse não é o mesmo verde e amarelo do agitado movimento nacionalista presente nos jogos Pan-Americanos. É um verde e amarelo de um inteligente e harmônico equilíbrio. Apesar da chuva fraca, a temperatura encontra-se agradável.

Há bastante lixo esparramado pelas calçadas e poucos são os pedestres que transitam pelas mesmas. O trânsito local, até agora, apresenta-se bastante reduzido para uma segunda-feira.

Enquanto, na padaria local, saboreava um copo de café com leite, silenciosamente eu observava a empolgação que movia a conversa em alto tom entre três senhores, distribuídos ao longo do balcão. O assunto: futebol. Cada um deles falava de peito aberto, as certeiras estratégias que deveriam ser tomadas por seus respectivos times de adoração, para que os mesmos pudessem obter os resultados por eles apresentados. Apontavam com minuciosos detalhes as falhas de cada um, desde o técnico, jogadores, comissão técnica, diretoria, presidência e até mesmo, as coligações com os patrocinadores. Eles diziam saber o melhor para os seus times e o expressavam sem a menor hesitação. Um deles, enquanto falava, corria seu olhar por toda extensão do balcão, certificando-se de que os outros clientes estivessem de acordo com as suas considerações.

Já no último gole do meu café, ocorreu-me o seguinte pensamento:

Será possível, algum dia, os homens falarem abertamente, com o mesmo entusiasmo e empolgação a respeito de seus conflitos, suas angústias, seus medos de não terem a realização de seus desejos infantis e sobre suas dúvidas e inseguranças?

Será que algum dia o homem versará livremente sobre suas próprias falhas, desatinos e corrupções?

É preciso ter em mente que corrupção é muito mais do que passar dinheiro por debaixo da mesa. Corrupção é esse movimento insano que nega a interioridade em nome da exterioridade. É a negação da realidade de si mesmo em conformidade com a falsidade da influência de terceiros. É tudo aquilo a que conscientemente nos sujeitamos e que contraria o bom-censo do ser que nos faz ser. É toda atividade que contribui para o intrincado processo que nos afasta da essencial descoberta do motivo pelo qual estamos no aqui e agora.

Do outro lado da rua, um senhor por volta da terceira-idade, de boné na cabeça, barba mal-feita e uma surrada capa de chuva, anonimamente revirava os sacos de lixo em busca de papelão e latinhas de alumínio.

21 julho 2007

Crise, oportunidade de crescimento

- Bom dia JR!

- Bom dia senhora!

- Lembra-se daqueles cd's com as aulas do curso do Gasparetto que eu havia lhe encomendado no inicio deste mês?

- Sim, o que tem?

- Meu filho entrou no site que você havia me recomendado e os encontrou lá. Achei um pouco caro, pois custam em média R$36,00. É possível comprar pelo site. Obrigado pela dica.

- Ora, senhora, não por isso.

- Tenho aprendido muito com o Gasparetto. Assisto ele todos os dias pela televisão. Não perco um só programa se quer. Para mim é um horário sagrado. Acho ele demais, simplesmente fantástico. Ele tem uma sabedoria incomum.

- Sei!...

- Sempre gostei de fazer terapia, mas tive que parar por que não estava mais encontrando liga entre eu e a psicóloga. Para ser franca, tinhas vezes em que eu sentia como se os nossos papéis estivessem invertidos... Era como se ela fosse a paciente e eu a psicóloga. Era como se ela estivesse fazendo sua própria terapia através da minha história pessoal.

- Quem sabe!... Mas fico feliz por você estar se encontrando através das falas e chavões psicológicos repetidos pelo Gasparetto. Acho que ele é um grande sintetizador de falas, além de possuir o poder da oratória envolvente. Só não sei se ele realmente vivencia em si mesmo tudo aquilo que ele fala, se bem que isso não vem ao caso. Há um dito de um sábio oriental que diz para beber o chá e não se preocupar com as possíveis sujeiras contidas no copo. Se o chá está lhe fazendo bem, então desfrute-o. Só faço votos para que você consiga se libertar o mais breve possível dessa seta que ele representa em seu processo de unicidade interna. Deixe essa seta o mais breve possível antes que ela vire um condicionamento que lhe impeça de chegar ao local para onde ela aponta. Só é possível chegar ao centro de você mesma sem a interferência do mapa de terceiros, uma vez que o seu caminho é único.

- Tenho uma leve consciência disso! Fique tranqüilo. Como hoje não tenho como fazer terapia, procuro fazer dos programas dele o meu horário de terapia particular.

- Você alguma vez experimentou a terapia gratuita dos grupos anônimos de auto-ajuda?

- Não é pelo fator financeiro que não estou podendo fazer terapia... É por causa do meu marido: ele é extremamente ciumento. É uma doença só. Tenho que fazer quase tudo as escondidas. Até da missa de domingo ele tem ciúmes.

- Isso deve causar uma ansiedade e tanto!

- Nem me fale!

- Você gosta de ler?

- Sim!

- Está aberta para sugestões literárias? Conheço algumas "sopas de letrinhas" que talvez possam lhe ser nutritivas...

- Diga lá!

- Sugiro que você leia um livro chamado "codependencia nunca mais". Há outro que aborda a mesma questão, intitulado "Juntos, porém, livres! – Amor sem dependência" São ótimos livros que apontam os nossos mecanismos de participação num relacionamento fechado. Mostram como muitas vezes somos os grandes mantenedores da doença do relacionamento. Por vezes, para evitar que uma crise se estabeleça, acabamos por anular nossa expressão de ação. É importante não criar uma crise desnecessária, mas talvez seja muito mais importante não impedir que uma abençoada crise se estabeleça. A palavra crise, em grego, "Krísis, Kríneim", tem como significados: julgar, examinar, selecionar. A crise é uma verdadeira benção quando é aceita e examinada com boa vontade a mensagem nela contida. Há também um ótimo livro do escritor e teólogo Leonardo Boff, intitulado "Crise: oportunidade de crescimento".

- Sei muito bem o que são as crises... Perdi minha família toda no espaço de quatro anos. Só eu sei o que passei com essas perdas, só eu sei como foi difícil sair do luto e ir a luta.

- Tenho em mente mais um livro para lhe indicar, mas receio que você me leve a mal por causa do seu título...

- Jr! Faça-me o favor... Desembucha...

- "Perdas Necessárias"...

- O título é bem forte mesmo e parece já dizer tudo...

- Não se apegue ao título; ouse conhecer seu conteúdo!

- Obrigado pelas indicações. Bem, agora eu preciso ir embora, pois ainda tenho que passar no mercado e fazer umas comprinhas básicas. Se eu demorar muito é capaz de ele vir atrás de mim, ou então, tenho que passar um final de semana inteiro vendo cara feira e neguinho "pensando alto". Você não faz idéia do quanto que isso é sufocante!

- Ok! Vá em paz e tenha um ótimo final de semana!

- Obrigado e igualmente. Por favor, transmita meu abraço para a senhora sua mãe.

- Será dado!

Por que as pessoas se permitem viver entre as grades frias de um relacionamento fechado?

Por que se mantém em relacionamentos disfuncionais e sem nutrição?

Por que não enterram os relacionamentos com prazo de validade vencido?

Por que permanecem em relacionamentos que não lhes incentivam na busca da "excelência do ser"?

Pode haver uma verdadeira relação onde existe apego, ciúme e controle? Isto é amor?

Pode uma pessoa que se permite ser vitimizada por comportamentos de controle por parte de terceiros, ter amor por si mesma? Sem amor a si mesmo, como ser possível expressar amor pelo outro? Sem o mínimo de amor por si mesmo é possível fazer escolhas sensatas para a própria vida?

E pode-se chamar de vida uma existência de conformismo a este tipo de "prisão" a qual muitos erroneamente chamam de relação?

Talvez, a fala de um grande amigo meu possa servir de resposta para alguma destas questões:

"É melhor um pouquinho de merda, do que merda nenhuma; afinal de contas, dessa merda, o cheiro já nos é conhecido"...


 


 

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!