Este blog não foi criado para quem já fechou as persianas de sua mente e cuidadosamente as fixou para que nenhum filete de luz de novas idéias penetre e perturbe sua sonolenta e estagnante zona de conforto. Este blog é para os poucos que querem entrar na terra firme da experiência direta por não verem outro caminho mais seguro a tomar.

16 janeiro 2009

Uma mente off-line

- Bom dia querido amigo! Que a harmonia, saúde, paz, felicidade e riqueza ocupem sua mente hoje e sempre!

- Bom dia e obrigado!... Desculpe-me, mas, não me lembro de você! Já conversamos anteriormente? Quem é o Pádua?

Enquanto esperava ele terminar de teclar sua mensagem, li no cabeçalho da sua tela do MSN a seguinte mensagem: "O controle do pensamento é a forma mais elevada de oração". Em vista dessa afirmação lhe fiz a seguinte pergunta:

- Então, pode existir o "controle" do pensamento?

- Pode sim.

- Não creio. vejo que sou impotente perante a manifestação do pensamento. Não tenho como saber como o pensamento vai se manifestar, com qual conteúdo e intensidade.

- É um trabalho constante de consciência que exige muita energia física e mental, mas é possível.

- Quando se "pensa" em controlar o pensamento, já não se está "pensando"?... Quem é o "controlador" e quem é o "controlado"?

- Não se pensa em controlá-lo e sim em estar sempre consciente do que se escolhe pensar.

- Por favor, quem é aquele que pensa e aquele que "escolhe" o que pensar? Quem é o "controlador" e quem é o "controlado"???? Que história é essa de "escolher o que pensar"? Para você o pensamento não surge sem a sua intenção de pensar? Ele não vive a brotar constantemente, vindo por si mesmo?... Gostaria de lhe indicar um link. Quando possível, dê uma olhadinha nele, tentando "controlar" seus pensamentos afim de não deixar os mesmos atrapalharem a leitura e dessa forma condicionando-a ao sistema de crença que você possa abrigar em seu "banco de dados mentais" ou se preferir em seu "arquivo da memória", em seu "HD mental"... Olha o link, confere lá: http://www.cuidardoser.com.br/pca/2007/08/1-observao.html

- Somos em essência puro amor e o amor em si mesmo é tudo que existe. O pensamento é criativo e na esfera do relativo há sempre uma dualidade na qual o ser pode conhecer-se experimentalmente indo de um extremo ao outro o tempo todo, "bem e mal".

- Com todo respeito: isso é experiência sua ou você está fazendo propaganda do que leu em algum lugar, viu em algum filme, ou então, vindo de algum sistema de crença espiritualista?... Você realmente é esse tal de "puro amor"?... E existe a divisão entre "puro amor e amor impuro"? Existe meia mulher grávida?... Não sei não! Estou bem longe disso (e nem estou buscando isso). Eu sou o que sou de momento em momento: raiva, inveja, medo, uma série de condicionamentos, alguns conscientes e outros ainda não! Não me satisfaço mais com teorias ou meras repetições espiritualistas. Prefiro viver "o que é", o que sou de momento a momento sem a neurótica tendência de querer vir-a-ser melhor, mais puro, ou mais sei lá o que quiser!

- Somos todos puro amor sem exceção, sendo que todos somos Um.

- Bonitinho! Mas não cola! Sem querer lhe faltar com o devido respeito, repito: isso É experiência sua? Ou está se limitando a repetir o que viu em algum filme, em algum livro de auto-ajuda que em nada ajuda, ou em algum sistema de crença? Você realmente vive isso em consciência total ou é apenas mais uma idéia bonitinha?

- É uma descoberta minha. Uma experiência que tive há três anos atrás.

- Três anos atrás... Experiência... Puro amor... Todos Um... Como disse o personagem no filme "Irmão Sol, Irmã Lua": 

- Palavras amigo, palavras... Houve um tempo em que eu me iludia com a palavras"... 

- Pádua, não me iludo mais: a palavra nunca é a realidade!

- JR, não se trata de palavras: trata-se de uma experiência que vivi há três anos atrás!

- Então, você ainda está lá? Está vivendo no passado de três anos atrás? E a realidade da experiência que está vivendo agora? Como fica?

- Trata-se de uma estória de busca interior de mim mesmo.

- Na minha visão, continua sendo uma relação com uma idéia, uma lembrança, uma projeção do passado, não uma ocorrência de momento a momento. Se me permite mais uma pergunta, por um acaso, o alimento físico ingerido por você há três anos atrás pode lhe manter em pé hoje?

- Sim! É verdade... É tudo que se pode e experimentar e ficar em si mesmo com a lembrança do que É.

- A lembrança do morango é o morango? A lembrança do morango lhe dá o sabor do morango no agora?

- Poderia ser outra coisa?

- Como assim?... A lembrança é o REAL?... Ou a lembrança é uma fuga do agora, um artifício do pensamento para nos distrair da realidade presente?... Quando se vive a lembrança, é possível de alguma forma estar-se consciente?

- A lembrança é tudo que se pode ter como experiência de si mesmo.

- Ah! Para! Fala sério!... Estou aqui e agora e não estou lembrando de nada! Não preciso de lembrança por que não sou o passado... Sou o aqui, o agora, o momento. Na minha percepção, a lembrança é mais uma fuga do pensamento para sair da realidade presente, do que se é... Você, há três anos atrás, viveu algo "extraordinário", ou seja, algo totalmente diferente da sua realidade cotidiana, mas não vive isso agora, foge para a lembrança e se conforma com a idéia... Desculpe-me, mas, não vejo muita inteligência nisso! O que há de real nisso?

- Sim, tudo que é passado, presente, futuro está acontecendo no aqui e agora, ao mesmo tempo, Não poderia ser diferente.

- Tem certeza de que não poderia mesmo?... Ok!... Tive uma experiência espiritual a X anos atrás... e daí?... Sou inveja, sou cobiça, sou medo, sou sensualidade condicionada pela mídia... Não me iludo mais com a "pseudo espiritualidade amorosa", com a idéia de "somos todos Um". A idéia nunca é o real. O símbolo nunca é o simbolizado. Minha percepção da realidade me diz que o pensamento é totalmente separatista e que, através dele, não pode haver amorosidade. Isso nunca pode existir enquanto há divisão entre o pensamento e pensador. Onde isso ocorre só pode haver conflito.

- Não vivi há três anos atrás... O que ouve foi um despertar de consciência que evolui gradativamente com o tempo.

- Sei! Despertar da consciência... Deixe-me ver se estou entendendo: então existe a consciência e aquele que observa a consciência... Consciência evoluindo no tempo... Que tempo?... Que raios de tempo é esse?... Existe isso?... Evolução psicológica da consciência num tempo?

- Sim!

- Ok! Então, por favor, poderia tentar responder ao menos uma pergunta?... Se você pode "controlar" o pensamento, então me diga: o que você vai pensar daqui há dois minutos?

- Só é possível se lembrar de uma experiência no aqui e agora. O agora é o único, não há nada além do aqui e agora. Tudo isso acontece simultaneamente.

- Não respondeu minha pergunta. Parece-me uma contradição. Então, por que você precisa se lembrar do passado? Por que não fica com a realidade do agora?... Você está vivendo agora com a mesma intensidade da experiência de três anos atrás? Ou está se conformando com o propagandear de uma lembrança?

- Esse sempre foi o propósito de tudo: descobrir a si mesmo e se recriar conscientemente a cada momento. Isso acontece o tempo todo... Você sempre está se recriando consciente disso ou não!

- Você não está respondendo as perguntas... Por que você precisa se refugiar no passado? Por que não fica com a realidade do que está ocorrendo agora?... Você esta vivendo agora com a mesma intensidade da experiência de três anos atrás? Ou está se conformando com a lembrança, com o saudosismo?... Ou com palavras bonitinhas?... Você é de fato aquilo que chama de "amor puro"?... Ou é uma infinidade de sentimentos desconexos que não refletem a realidade da crença do que você deveria ser?

- O nível de consciência é mais elevado. Somo todos puro amor!

- Somos mesmo?... Por favor, responda as perguntas.

- Sim! Somo todos puro amor!... Somos todos Um!

- Ah! Para!... Não generalize! Eu não sou puro amor!

- ... E amor é tudo o que há!!

- Bonitinho!... Já vivi esse papinho há alguns anos atrás! Era um amontoado de emoções reprimidas embaladas num celofane coloridinho chamado "espiritualidade"... Isso para mim, não cola!... Fico com o real! Com aquilo que sou de momento em momento!

- Você é sim "puro amor", pode ainda não ter consciência disso, mas é.

- Está bem!... Pelo visto, acho melhor pararmos por aqui, uma vez que não está ocorrendo um "observar juntos". Você não parece estar lendo minhas perguntas e querendo observar juntos. Parece estar querendo propagandear seu sistema de crença e, para mim, a crença é uma maléfica influência que nossa consciência prensa. Se prefere ficar no conforto da sua crença, é um direito seu! Mas não venha nesta hora da manhã querer infectar minha realidade!

- Você dispõe de todos os sentimentos e pode manifestá-los o tempo todo. Tudo é só uma questão de escolha.

- Não quero viver do passado, da lembrança, da crença... O que? Escolha?... Então, com todo respeito, você deve ser um ser fantástico, um novo avatar, uma vez que consegue "controlar" os pensamentos e ainda "escolher" os sentimentos". Como você faz? Aperta o botão "sentimento amor"?

- Podemos sempre fazer escolhas dos sentimentos. Essa é a beleza!

- Você está me fazendo lembrar de uma antiga amiga com a propaganda que fazia do livro "A Linguagem dos Sentimentos"... Amigo: isso não ocorre comigo!... Percebo a manifestação dos pensamentos e dos sentimentos que brotam sem a menor participação consciente. Os mesmos surgem por si de momento há momento. O que ocorre é a observação e na observação não ocorre escolha. Quando você vê uma cobra venenosa, ou se vê numa situação de perigo, você escolhe ou age de imediato? Onde há escolha, há vacilo, há conflito, há perda de energia!

- Você escolhe em um nível de consciência o como reagir diante de um determinado acontecimento.

- Mas sou totalmente impotente perante o conteúdo, a intensidade e a durabilidade dessa manifestação do pensamento ou do sentimento que nada mais é do que a somatização do pensamento.

- Isso!

- Você não respondeu nenhuma das minhas perguntas desde o começo da nossa conversa!

Isto está parecendo um monólogo! Por isso, creio ser melhor pararmos por aqui!

- O que se pode fazer é escolher diante de inúmeras manifestações de pensamento.

- Não dei a reposta que você gostaria de ouvir.

- Não se tratar de querer ouvir algo premeditado; trata-se de uma tentativa de dialogo. Mas vejo que fica difícil dialogar quando se está condicionado há um sistema de crença idealista. O idealismo é uma mera fuga da realidade, daquilo QUE É, AQUI E AGORA.

- Bom de qualquer forma foi um experiência maravilhosa!

- Então, conforme seus dizeres, se o pensamento se "manifesta" de inúmeras formas, você ainda acredita mesmo que tem "controle" sobre o pensamento?

- É o pensamento condicionado da massa.

- Quem é essa massa? Você está fora dela? Está realmente livre de todos os condicionamentos da "massa"? Quem é que está separando a massa, de você e de mim?... E aí? Cade aquele papinho de "somos todos Um"?... Agora já não somos todos um só? Somos uma divisão entre seres de consciência evoluída através do tempo psicológico e os seres inferiores classificados de "a massa"? Já não somos todos puro amor? Agora somos puro amor e a massa?

- Sua consciência em relação a si mesmo.

- Amigo, tenha um bom dia! Tenho mais o que fazer! Filosofar JÁ ERA! Estou mais a fim de viver o aqui e agora, de momento a momento, com aquilo que se manifestar, apenas observando! Seu papo está me fazendo lembrar daqueles hippies, com cabelos longos cabelos ensebados, fazendo uso de drogas, com cartazes de paz e amor!... Tenha um bom dia!

- O amor é tudo! Obrigado querido amigo! Para você também!

Antes mesmo que eu pudesse me despedir melhor, em meu computador apareceu a seguinte mensagem, que retratou bem a realidade ocorrida durante o monólogo:

!Pádua parece estar off-line. As mensagens serão entregues quando esse contato entrar. 

11 dezembro 2008

Bem seja!


Bom dia Priscilla, espero que você esteja vivendo bons momentos!

Fico feliz por saber que você encontrou eco nos textos provindos das palestras proferidas por Krishnamurti. Eu costumo brincar com alguns amigos que a minha vida está dividida em AK e DK (antes e depois de K).

Antes de conhecer seus pensamentos, eu levava uma existência sem vida e hoje, posso lhe afirmar que tenho vida em abundância em minha existência.

Quanto aos meus textos, fico feliz por saber que de algum modo estavam servindo de espelho para suas questões.

Estou num momento de profunda reflexão, revendo valores, questões, mudanças de paradigmas profissionais, o que tem exigido muito esforço, dedicação e estudo.

Sei muito bem o que é correr a net em busca de textos para “remediar” as minhas angústias, tédio e insatisfação. Mas, descobri a duras penas, - ainda bem que a tempo -, que a palavra “remediar” não tem o poder de mutação. Esta só pode ocorrer quando deixo de ler o livro do outro e começo a ler o livro que sou. Como nas palavras de Krishnamurti, "Temos que ser uma luz para nós mesmos". Se formos sérios, destemidos nesta profunda leitura de nossos pensamentos e sentimentos, quem sabe, num momento inesperado, possamos nos deparar com o autor do livro que somos nós.

Saiba que não deixei o gosto pela escrita. Estou somente dando um tempo de amadurecimento para novas situações (um solo depois de semeado precisa de descanso para poder dar fruto com abundância e qualidade).

Saiba que durante muitos anos, incentivado pela linha de pensamento dos membros dos grupos anônimos, me apoiei no "chororo" de ter nascido numa família disfuncional. Agora lhe pergunto: qual não é?. Hoje vejo que algumas são mais que outras e, pelo que me parece, sorte dos que nasceram numa mais disfuncional pois estes, são mais alérgicos ao conformismo aos padrões socialmente aceitos. 

Hoje, de coração lhe digo que sou profundamente agradecido por ter tido um pai alcoólatra e uma mãe codependente, emocionalmente perturbada por querer vestir as calças de seu marido. Tenho consciência de que não sou responsável por ter nascido numa família disfuncional e muito menos pelo que fizeram comigo em seu meio: sou responsável pelo que sou e por aquilo que quero para mim HOJE. 

Sei que tenho tudo que me é necessário para fazer as modificações para uma vida com qualidade: o poder de DECISÃO. Sou o único RESPONSÁVEL por ser feliz e, sei que a felicidade, não depende de NENHUM FATOR EXTERNO A MIM. A Grande Vida me proveu com as minhas digitais e a minha coluna vertebral, não bastando isso, a sociedade providenciou meu CIC e meu RG. Ninguém tem igual. Sou o único responsável por eles. Ninguém tem o poder de ficar no meu lugar caso eu venha a ter uma depressão. Do mesmo modo, não tenho como ficar no lugar do outro, quando o mesmo sofre por causa de suas escolhas e atitudes imaturas. Tenho somente o poder de compreender a mim mesmo. 

Descobri que posso amar os meus vizinhos, mas, preciso construir as minhas cercas. São escolhas minhas estabelecer limites saudáveis em meus relacionamentos e estar com pessoas nutritivas...  Quem colhe os frutos ou os espinhos destas escolhas sou eu. Não sou vítima do destino. Tudo está certo. Basta olhar a vida por prismas diferentes e ousar... Ousar, essa me parece ser a grande palavra para uma vida qualitativa.

Sabe, nestes anos tive a oportunidade de trabalhar por um período com dependentes químicos e seus familiares. Uma das coisas que mais ouvia era uma frase muito semelhante a sua, explicíta em seu texto:

- Acredito que serei feliz quando meu pai fizer seu ingresso em AA, bem como ele se reformar. Se meu pai ingressasse no AA e se reformasse, minha vida seria muito melhor e minha depressão curada.

O que víamos é que muitas vezes, quando o dependente químico iniciava sua recuperação, deixando de ser o centro de atenção da casa (e também o bode expiatório), as pessoas ao seu redor começavam a passar mal, pois começavam a se deparar com as próprias neuroses, conflitos, ansiedades e outros sintomas mais. Não tinha mais o alcoólico para culpar pela incapacidade de gerar a própria existência com maestria. Desculpe-me pela franqueza, mas, posso lhe afirmar que sua “cura” não depende da sobriedade de seu pai, ou então de qualquer fator externo a você. Sugiro que experimente parar diante de um espelho e olhar bem para ele... Você estará diante da causadora de seus problemas e também da única pessoa responsável pela solução dos mesmos. E essa parece ser a nossa maior benção. 

Também fico feliz por você estar começando a pagar a prestação da sua casa própria via consórcio. No entanto, ficarei ainda mais feliz se souber que você começou AGORA a prestar atenção na casa própria que é você, casa esta que não precisa de nenhum tipo de sócio, ligação ou união externa, para a execução deste projeto de grande porte tão negligenciado por muitos. Adquirir esta casa própria interior é o melhor autofinanciamento para a aquisição de um real bem durável, o qual não precisa da participação ou contribuição de nenhum grupo, muito menos de um número de meses previamente combinados. Posso lhe garantir que, diferente de um consórcio, cuja alegria transitória só vem com a contemplação final, o investimento que fazemos em nossa casa própria interna traz a alegria contemplativa no eterno AGORA. Não pense que um montinho de tijolos cobertos por uma argamassa colorida, registrada num cartório qualquer possa lhe trazer paz de espírito. Conheço muitos, com muitas, que nem sequer conseguem dormir direito, quanto mais desfrutar da vida em sua plenitude.

Pode até parecer frase de livro de auto-ajuda, desses que em nada ajudam mas, tudo o que você precisa encontra-se dentro de você!

Respire fundo. Convide seu mal-estar, suas angústias e ansiedades para um chá ao fim da tarde. Aventure-se na descoberta do ser que lhe faz ser!

Bem seja!

Um abraço fraterno,

 Nelson Jonas  

26 novembro 2008

Sobre a indiferença

"O pior pecado contra nosso semelhante não é o de odiá-los, mas o de ser indiferente para com eles. Essa é a essência da desumanidade".
George Bernard Shaw, escritor, IRL, 1856-195
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Fotos: Nelson Jonas

10 novembro 2008

Num almoço de domingo

Domingo de sol.

Almoço em família.

Pratos, copos, talheres, a colorida toalha de mesa vinda do outro lado do oceano e a saborosa carne assada com batatas douradas que só as mães sabem fazer.

As vozes soam altas, descompassadas, tornando impossível o encontro e a real comunicação.

Na ponta da mesa, o pai, num silêncio perdido, enquanto a mãe, como sempre, a última a se acomodar.

As crianças, uma de cada lado da mesa, permanecem física e emocionalmente espremidas, em meio de adultos perdidos que inconscientemente repetem os mesmos tipos de abusos recebidos, os quais insistem em rotular como “educação”.

A mais velha das crianças, tem seu rosto ruborizado ao ser exposta por sua mãe diante de todos, com olhar raivoso, pelo péssimo resultado obtido num exame feito numa escola particular para a tentativa de uma bolsa de estudos.

- Se você se dedicasse mais aos seus livros, seria muito melhor! – Esbravejava a mãe, com olhar dilacerante.

A pequena e tristonha menina limitou-se a levar o braço esquerdo sob os cabelos, numa tentativa desesperada de esconder sua vergonha.

- Você precisa se dedicar aos estudos com mais seriedade, caso contrário será um fracasso. Se quiser ter sucesso na vida e ser uma pessoa importante e ter bastante dinheiro, precisa se dedicar.

Nesse instante, me vi talvez no mesmo conflito vivido um dia por Benjamin Franklin: é falta de educação calar um idiota e crueldade deixá-lo prosseguir. Então, o que fazer?

Como não creio que a verdadeira educação tenha como objetivo real a busca de prestígio e poder tentei amenizar o sofrimento interno da menina diante de tamanha pressão irrefletida:

- Eu sempre fui um péssimo aluno. Lembro-me bem que ainda adolescente me revoltava com a metodologia de decorar e repetir símbolos que nada simbolizavam para mim, como por exemplo, o raio da tabela periódica e os tipos de metais... Por favor, me respondam: quem daqui realmente usa 10% daquilo que lhe foi empurrado goela abaixo nos tempos de escola?

- Acho importante tudo isso. Como uma criança pode se despertar para a química se não for apresentada a ela? – Respondeu o pai da criança com olhar sisudo.

- Sempre detestei física e química! – Bradou minha esposa Deca que também se via incomodada com a crueldade da pressão exercida sobre a menina.

Olhando para a encabulada criança, com um sorriso repeti:

- Sempre fui um péssimo aluno, graças a Deus! Não creio que boas notas seja realmente sinal de criatividade. Existe um excelente livro escrito por dois “homens de sucesso”, Rubem Alves e Gilberto Dimenstein, cujo título é “Fomos Maus Alunos”. Ainda bem que não deixei a escola matar minha sensibilidade e criatividade com aquele sistema imbecil de decoreba comparativa.

- Uma coisa é ser mau aluno, outra bem diferente a ter tino para a liderança. – Respondeu o pai em tom empresarial.

Tendo em vista seu profundo medo de entrar em contato com seus condicionamentos e sentimentos, preferi não dar continuidade ao assunto. Limitei-me a dar uma olhadinha para a menina, dando-lhe uma piscadela e um sorriso amoroso. A constatação do velho padrão educacional de meus pais sendo repetido pelo meu irmão causou-me um amargor na boca, o qual amenizei com um bom gole de suco de uva.

- Dinheiro, dinheiro, dinheiro... Só nisso se preocupam as pessoas hoje em dia. De fato, a cada dia que passa, mais se extingue a possibilidade de uma educação voltada para a compreensão da vida. – Externei em baixo tom para não agregar mais polêmica a já estabelecida. 

É triste perceber que a maioria das pessoas só se preocupa com a conquista de lugares na sociedade, com ótimos emprego e excelentes remunerações; com os resultados a serem conquistados com as operações na ansiolítica bolsa de valores e nos altos valores pagos para a eliminação da bolsa de gordura localizada. É incrível que, em pleno findar de 2008, pais ainda não consigam fazer a leitura dos sentimentos de seus filhos, estes externados através dos resultados ditos negativos de suas notas. Que ainda insistam em abafar a sensibilidade de seus filhos em nome de uma patética conformidade com este manipulante sistema disfuncional. Que ainda acreditam na repressão, no autoritarismo, na violência física e emocional como instrumento de educação. Que ainda insistem em aprisionar seus filhos em sistemas de crenças organizadas. Que não conseguem perceber que o resultado de suas notas é um grito de alerta, um pedido de atenção e real cuidado, um grito de desespero vindo de sua essência, um apelo de sua inteligência criativa que se vê aos poucos sendo enclausurada sobre as grossas camadas de condicionamento social e parental.

De fato, as sábias palavras de Alexander Schutherland Neil fizeram eco aos meus sentimentos mais profundos, as quais ouso parafraseá-las:

Gostaria de ver a educação familiar produzir um varredor de rua feliz do que mais um neurótico erudito em busca de uma receita mensal para seus psicotrópicos de tarja preta.

E meditativo sobre tudo que havia ali presenciado, sai daquele almoço de domingo interiormente exclamando: 

Abençoados sejam os maus alunos!... 

12 agosto 2008

TV destrói relacionamento


A televisão nos transformou numa nação de VOYEURS que só se excita vendo os outros agirem... a televisão diminui a vigilância, inibi a ação, cria um cinismo sensório, produz mentes estreitas e rigidamente delimitadas, programa o inconsciente com sonhos emprestados, destrói o apreço pela complexidade e cria uma mentalidade que compra a visão comercial da vida... quanto mais atraente se torna a televisão, maior a probabilidade de um dia acordarmos e descobrirmos que nos esquecemos de viver.

A existência dos comerciais de televisão depende de nossa passividade, do não questionamento, da obediência às falsas mensagenzinhas de aparente entusiasmo que as heroínas oficiais sopram em nosso ouvido, de seguirmos o conselho das cínicas "personalidades" que emprestam seu nome para nos convencer de que um toque de açucar faz bem. Não faz! É preciso ser estúpido para que o sistema funcione. Mude de canal!

Quem controla os sonhos de uma nação detém o poder de formar a realidade. Os criadores de imagem, os fabricantes de heróis e heroínas, os contadores de histórias, os bardos oficiais configuram nossos desejos e governam o que iremos amar. Já tivemos nossos bardos, os trovadores itinerantes, os piquiniques familiares onde os tios contavam coisas engraçadas que nossos pais faziam quando crianças e avós que se lembravam do começo dos tempos. Agora, no máximo, temos as novelas em capítulos que nos são oferecidas por um patrocinador para quem somos cópias carbono, consumidores em série. Pelas imagens que mostra e detém, a televisão molda nossos desejos.

Sam Keen

01 agosto 2008

Sou como a Lua:

Sou como a Lua:
Tenho várias fazes,
Vários ângulos,
Me modifico diariamente...
Nunca sou o mesmo.
Há quem reclame!
Sou novo,
Minguante,
Cheio,
Crescente,
mas, não crente.
E se enganas
Ao apontar o dedo para mim;
Aquilo que vês,
Assim como a Lua
É somente minha metade.

29 julho 2008

A magia de escutar

Escutar é uma arte que não se aprende facilmente, mas há nela beleza e uma grande compreensão. Nós escutamos com as várias profundidades de nosso ser, mas nosso escutar é sempre com uma percepção de um ponto particular da vista. Nós, simplesmente nada escutamos; há sempre um filtro dos nossos próprios pensamentos intervindo, conclusões, e preconceitos. Escutar exige quietude interior, uma liberdade da tensão de adquirir, uma atenção relaxada. Neste alerta, contudo, em estado passivo, pode-se ouvir o que está além da conclusão verbal. As palavras confundem; são somente meios de comunicação externos; mas para perceber além do ruído das palavras, deve haver um escutar um passivo, alerta. Assim se pode escutar o amor; mas é extremamente raro encontrar um ouvinte. A maioria de nós somos o acumulado, o conseguindo, os objetivos; nós estamos sempre acrescentando e conquistando, e assim não há nenhum escutar. É somente nesse escutar que se escuta a canção das palavras.

Krishnamurti

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Escolho meus amigos pela pupila

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU! JUNTE-SE À NÓS!